domingo, 6 de maio de 2012

A dor Marguerite Duras, 1985




Terminei de ler o livro no sábado. Mas, antes de escrever sobre livro, relatarei quando conheci a autora francesa, já falecida. Quando era adolescente assisti ao filme O AMANTE( 1992), baseado no livro de Marguerite Duras, onde conta a história de uma garota, filha de colonos franceses em dificuldades financeiras e que vivem no Viatinã, envolve-se com um chinês rico e bem-sucedido, muito mais velho do que ela, depois que ele oferece uma carona em sua limusine. A paixão que surge entre os dois é alvo do forte preconceito da sociedade, que não aceita nem a diferença de idade, nem a de classes, o que acaba interferindo no relacionamento. Anos depois, li o livro e o adorei. A narrativa tem imagens lindas e ao mesmo tempo enxutas. Mesmo com poucas páginas, não deixa de ser um grande livro. Em 2009, comprei dois livros da autora por um real numa feira de livros. Primeiro li OLHOS AZUIS, CABELOS PRETOS e, agora A DOR. 

No primeiro livro, A imagem do título veio a minha mente como características não muito comuns do que se vê por ai. Uma pessoa loira de olhos claros é mais corriqueira, por exemplo. Portanto, o título se refere a um personagem de passagem, um estrangeiro-exótico que se transforma em uma quimera para uma mulher de comportamentos não convencionais e um homossexual. Ele será o elo que ligará estes dois personagens. O homossexual é apaixonado por uma visão, apenas conheceu o rapaz de vista. Ela ama uma ilusão, conheceu-o somente por encontrá-lo num hotel. Desesperados e melancólicos por perder o rapaz de olhos azuis e cabelos pretos, o homem e a mulher se encontram num café e começam a construir uma estranha relação. Com o passar do tempo, essa mulher apaixona-se por esse homossexual que sente atraído, com medo e repulsa dela, em vários momentos. Todavia, insiste em vê-la nua e lhe toca enquanto ela dorme. O livro mostra uma crise existencial entre os dois personagens.

Em A DOR, Marguerite Duras como no Amante mescla suas experiências pessoais e a ficção para mostrar como era o cotidiano antes, durante e depois da guerra. O foco do livro não no fronte de batalha, mas na busca de informação dos que foram deportados pela Alemanha, a dor da separação, a luta da resistência francesa contra a ocupação alemã. Mostra como uma guerra modifica cruelmente as pessoas. “ A dor é uma das coisas mais importantes de minha vida.”, diz Marguerite Duras.

O livro é um diário que se divide em partes: A primeira é o relato da busca de notícias de Robert L, da angústia da espera de não receber informações. A narradora, Marguerite espera seu marido, vive na sua ausência, não conhece outro mundo que não o de aguardá-lo. Diz que não se recorda quando escreveu caoticamente na dor. 

Em seguida, outro fragmento do diário: O. SR. AQUI CHAMADO DE PIERRE RABIER. Realmente, agostei mais dessa passagem do livro. Porque fala do agente da gestapo sem maniqueísmo. É descrito como uma cara que persegue os membros da resistência e captura os judeus, não por ser psicopata, mas por desejar ser dono de uma livraria. Também, tinha uma fé inquestionável da supremacia alemã. A autora-personagem tinha encontro com eles nos cafés e livrarias. E o senhor Pierre Rabier relacionava-se amistosamente com seus prisioneiros, mesmo levando-os à morte. Enfim, era um pai de família mediano, que foi condenado por seus crimes.

Outra parte do diário: TER, O MILICIANO. Mostra Thérèse(Marguerite Duras) que tortura um senhor delator de judeus e de pessoas ligadas à resistência, em busca de informações. E seguida conta a história de um jovem que trabalhava para os alemães para ter carro, luxo e mulheres. Era um rapaz que não refletia, só era movido pelo prazer e pagará um preço caro por isso. “Thérèse sou eu, Aquela que tortura o delator. Como também sou aquela que deseja fazer amor com Ter, o miliciano. Eu lhes dou aquela que tortura juntamente com os outros textos. Aprendam a ler: são textos sagrados.”

As duas últimas passagens do livro são literatura como frisa a escritora: 
“ ... Este texto felizmente não foi publicado durante quarenta anos. Eu o reescrevi. Agora não sei mais do que se trata. Mas é um texto para o futuro, e talvez seja um bom roteiro de cinema.”

“ Foi inventado. Foi um amor incontrolável pela menina judia abandonada.”

Por fim, A DOR é um livro fragmentado, não linear e um representante da literatura contemporânea que rompe com o convencionalismo da literatura tradicional.



A mistura de realidade e ficção evidencia como é complexo o mundo em que vivemos. Como ao longo do tempo, os ser humano é instável essencialmente.

Ao termino do livro me questionei de muitas coisas... Será que sou forte o bastante para dor da perda? De enfrentar a verdadeira face do mau? De não ser um filho da puta egoísta que foge numa situação limite? Quem sou eu realmente? Vítima, vilão, inocente, culpado, perseguido ou perseguidor? Marguerite Duras passou por essa fragmentação neste livro. Foi escritora, narradora, personagem, vítima, algoz, soldado e mulher.