domingo, 26 de abril de 2015

Janela sobre a memória (I) de Eduardo Galeano



  

   À beira-mar de outro mar, outro oleiro se aposenta, em seus anos finais.
     Seus olhos se cobrem de névoa, suas mãos tremem: chegou a hora do adeus. Então acontece a cerimônia de iniciação: o oleiro velho oferece ao oleiro jovem sua melhor peça. Assim manda a tradição, entre os índios do noroeste da América: o artista que se despede entrega sua obra-prima ao artista que se apresenta.
     E o oleiro jovem não guarda esta peça perfeita para contemplá-la e admirá-la: a espatifa contra o solo, a quebra em mil pedacinhos, recolhe os pedacinhos e os incorpora à sua própria argila.

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Ao ler este texto comecei a pensar sobre outros aspectos que com certeza o autor não pensou na hora de escrevê-lo.  Mas, mesmo assim, divagarei um pouco, já que depois da leitura me lembrei do conceito da Antropofagia Cultural e de como ela é importante para a sobrevivência do conhecimento humano.  
Se observarmos bem, nada é original em si. Existe um processo de saberes anteriores que ao longo do tempo são digeridas e transformadas em outros conhecimentos. Quando o indivíduo digere as informações e a modifica para complementar seu olhar, torna-se criativo. Diferente do que só reproduz como um gravador e contempla passivamente a obra do outro. 



quinta-feira, 16 de abril de 2015

LEMBRANÇA











Recordo-me que uma vez fui com meu pai comprar um livro, O JARDIM SECRETO.  Até hoje, lembro-me dele apesar do tempo. Isso foi há mais de vinte anos e já estou com a idade de me lembrar das coisas, mesmo com a passagem de tempo de vinte e trinta anos.  Tenho 36 e já caminho para maturidade.

 Voltando ao assunto... O livro narra a história de uma órfã inglesa que perdeu os pais na Índia e que foi morar na mansão do tio ausente e corcunda. O romance era cheio de suspense, mistérios e reviravoltas.

 O bacana quando me lembro do livro, vem a lembrança de que eu e meu pai o encontramos numa livraria no Jardim Botânico e, ao entrar, fiquei admirado. Era enorme, repleta de livros, um piano ao fundo e uma música jazz como som ambiente. A primeira sensação que tive foi de experimentar um mundo desconhecido e fiquei fascinado. E está lembrança foi tão marcante que confesso ainda imaginar entrar nessa livraria e viver um tempo onírico.

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sábado, 4 de abril de 2015

Ninfomania volumes I e II de Lars von Trier




Finalmente criei coragem para assistir ao filme Ninfomania volumes I e II de Lars von Trier. Confesso que não me sentia preparado para entrar no clima obscuro da depressão, obsessões e da solidão que o diretor aborda com eficiência. Já havia visto O Anticristo e Melancolia e confesso que fiquei deprimido com os dois filmes, por mostrar cruamente o lado sombrio do ser. Lars von Trier, a meu ver, mostra a compulsão por sexo sem maquiagem e clichês. As cenas são sombrias e os personagens são realistas, a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma mulher comum em busca de prazer e não parece nem um pouco uma personagem estereotipada de filme pornô. Ela não consegue parar e mesmo transando com vários homens a fome continua, além de um buraco vazio crescendo em sua existência. Transforma-se em uma pária na sociedade, porque não se encaixa em nenhum lugar,  solitária com seu desejo.
Não quero analisar moralmente o filme, apesar de eu ser provinciano, mas, será que vale a pena viver assim, completamente escravo de seu desejo? Lógico que a história discute um pouco sobre hipocrisia em relação ao sexo, ainda existe muito. Enfim, apesar de ficar mais uma vez deprimido( como já disse sou provinciano) é bom mergulhar nos lugares mais sombrios do ser humana e reconhecer que eu os tenho, também. Não adianta escondê-los, mais sim aprender a lidar com eles.
 Recordo-me de dois filmes de Bergman que me faz ter a mesma sensação: Gritos e Sussurros e Persona - Quando Duas Mulheres Pecam.
Obs: Agora essa atriz anglo-francesa Charlotte Gainsbourg tem um despojamento para interpretar! Um bom exemplo para se diferenciar o que é ser atriz e do que é ser celebridade.