quinta-feira, 31 de maio de 2012

DO CÉU AO INFERNO




Há pessoas envolventes que possuem uma capacidade de seduzir. Não me refiro ao aspecto sensual e sexual somente, mas sim em todos os níveis de relacionamentos humanos.
Admiro indivíduos assim (eu não tenho um pingo de sedução), mas ao mesmo tempo sinto medo de cair num labirinto de dissimulações. Não gosto de me sentir manipulado. 

Porém, como tudo na vida têm os dois lados. Há os sedutores bons e os maus. O primeiro usa seu charme até as fronteiras éticas, enquanto o outro não tem limites. 

Outro fato é que a pessoa envolvente, não necessariamente precisa ser bela ou sensual. O bom humor e a inteligência são atrativos também, principalmente, para quem gosta de um bom papo e rir de uma boa piada.

Enfim, dependendo das circunstâncias os envolventes podem levar a gente do céu ao inferno.

domingo, 27 de maio de 2012

PAI E FILHO, FILHO E PAI (MOACYR SCLIAR)








Terminei por esse dia esse livro de contos. São narrativas agradáveis de ler e há uma ironia inteligente nelas. 

O que acho interessante no conto não é síntese, mas o que não se revela na escrita. Um bom contista faz isso com maestria. Em cada leitura, percebem-se outros elementos e histórias. Scliar fez isso muito bem. 

Só tinha lido um livro dele: A Festa no Castelo de Moacyr Scliar. O romance não é extenso, mas a narrativa prende o leitor por contar duas histórias: O mundo requintado da aristocracia idealista e a amizade de um velho sapateiro e um jovem idealista, em que vivem no Sul do Brasil nos meados dos anos de 1964, ano do Golpe militar. No início as histórias parecem não ter ligação, contudo com o passar das páginas, percebe-se que há uma intercessão.

Pelos contos que li, o autor mostra que escrever com simplicidade não significa mediocridade. Pelo contrário, seus textos são ricos e sem ser pedantes. Além da ironia que havia mencionado, o humor inteligente tempera ainda mais os relatos, que aparente são cotidianos. 

Gostei mais de alguns contos, mas o todo vale a pena de ler. Bem... sou suspeito em dizer, amo contos e repetindo um chavão: “ Tamanho não é documento.”. Há contos que velem por muitos livrões por ai.

OUTROS OLHARES


 A CRONICA DE HOJE NO "Estado de Minas"e "Correio Braziliense"para não perder o hábito:


LER O LIXO


Affonso Romano de Sant’Anna


O lixo está na moda. Em todas as partes. Na novela “Avenida Brasil”um dos cenários é o lixão onde a Débora Falabela e o Cauã, digo, seus pesonagens cresceram.
Há pouco o Vik Muniz levou nosso lixo para Holywood, fez aquele documentário sobre um lixão carioca, levou o simpático catador de lixo ao Oscar. Lixo: material de exportação. O autêntico produto interno bruto.
Antes foi aquele filme documentário lírico e estarrecedor de Marcos Prado“Estamira”- ele jogou a loucura do lixo e o lixo da loucura na nossa cara. Não dava mais para fingir que somos limpos e sãos.
Bem, antes já havia a Boca do Lixo, lá em São Paulo, pólo cinematográfico e da vida boêmia. O lixo foi criando seus derivados e hoje parte daquele território virou a Cracolândia: o lixo humano. As cenas que vemos estão entre as gravuras do Inferno de Dante feitas por Gustavo Dorée, o gulag comunista e os leprosários antigos.
Nos anos 70 surgiu em Minas uma revista marginal chamada “Lixeratura”.Tratava-se de trazer o que estava oculto para a sala de visitas. A chamada “literatura marginal” dos anos 60/70 foi isto. O movimento “underground”ia nessa linha -cavar fundo nossas contradições
Conheço gente que está ganhando dinheiro com o lixo alheio.Trata-se de dar um jeito no dejeto. O estrume vira ouro. Do nada surge o tudo. O lixo ( segundo aquele fácil trocadilho) virou luxo.
Você não pode mais se lichar para o lixo.
Criaram a moda do lixo, a moda “trash”. Eu já tive un daqueles jeans rasgados, que minha filha “contemporânea” me deu. E aí assistimos o inimaginável: as vitrinas mais caras do mundo passaram a vender lixo, roupa rasgadas, desfiadas, falsamente sujas e desbotadas. E os ricos tiveram masoquista e sadicamente o prazer de experimentar ricamente a pobreza.
O lixo invadiu o espaço da arte: detritos (ou lixo mesmo) começou a ser descarregado nas galerias de arte. Teve um anti-artista francês que jogou vários caminhões de lixo na galeria em Paris. E fez o maior sucesso. Tem gosto para tudo.
O que seria do lixo se não fossem os urubus?
O que seria dos urubus se não fosse o lixo?
Há lixo para todos os gostos. Alberto Morávia tem um conto onde narra aquele episódio de Ulisses na ilha de Circe. Mas ele diz que há uma outra versão segundo a qual os marinheiros comiam lavagem com muito gosto, ninguém os obrigava. Eles comiam e achavam uma delícia.Gostavam ( freudianamente) do “mal estar da civilizacão”-como na pós-modernidade.
Outro dia estava falando em Joinville e sugeri que quem trabalha com a leitura deve fazer um programa com os lixeiros porque eles lêm o lixo da cidade, eles lêem nossa cultura de forma muito peculiar. E têm coisas para contar.
Uma agente de leitura me deu comovente um DVD sobre os lixeiros da cidade.
Já ia dizer que estava me deliciando com o video. Na verdade, estou me “delixiando”.


Fonte: Facebook do autor

sábado, 26 de maio de 2012

Apocalipse zumbi




Tenho medo de me transformar em zumbi e de viver num mundo sem palavras e fantasia. Não mais ler um livro e assistir um filme. Viver o instante cru, sem a fábula e a poesia.


O mundo humano tem muitos defeitos, mas as várias manifestações de arte consertam as falhar e preenchem os vazios. Tenho medo de não poder mais sentir o prazer de beber um bom café ou deitar na minha e olhar para o teto. Os pequenos do cotidiano são maravilhosos para mim, como observar a paisagem se diluindo no carro. Nem imagino parar de escrever, que é para mim uma segunda forma de respirar. 


Ser morto vivo é ser outro e o distinto sempre me dá medo. Já pensou viver uma forma completamente diferente como um animal selvagem que é programado pelos instintos?


Se houver um APOCALIPSE ZUMBI, serei um dos primeiros a morrerem. Não tenho dinheiro a fim de comprar minha segurança e nem sou inteligente o bastante para ser útil aos poderosos. 


Enfim, irei me matar. Tomara que Deus me perdoe pelo meu ato. Mas, não quero ser outro. Afoguei em mim há muito tempo.

DIREITO DE RESPOSTA





"Olá Eduardo eu sou moderadora do fórum em questão e fui eu a responsável pelo seu banimento. Assisti ao seu vídeo e me senti na obrigação de te oferecer uma explicação mais detalhada. Eu vi que você não encontrou a regra sobre o titulo em caixa alta e eu busquei o link com todas as regras e vou disponibiliza-lo lá no seu perfil, aqui colocarei apenas a parte que nos interessa: [4. TÍTULOS DOS TÓPICOS - É muito importante seguir à risca as regras para elaboração dos títulos de seus tópicos. Qualquer tópico formatado com título fora das regras será imediatamente removido. As regras são: a) Proibido título escrito em caixa alta, ou seja, com todas as letras em maiúscula (se a maioria das letras estiver em maiúscula já será o suficiente para a remoção); b) O título deverá deixar claro o conteúdo do tópico. Ou seja, nada de criar tópicos com títulos genéricos. Exemplos de tópicos com títulos errados: "Vídeo novo, assistam", "ae galera se liga nesse vídeo", "tirinha", "fiz uma imagem". Escrevam títulos de tópicos que tenham a ver com o conteúdo que a pessoa irá ver. c) Qualquer título mentiroso resultará na remoção do tópico. Ou seja, não crie um título como: "mulheres se ensaboando" somente para atrair a atenção dos usuários.]. A minha finalidade foi exatamente essa: chamar a sua atenção. Já havia te alertado antes e você não viu ou não deu importância. O prazo de 24 horas é o prazo mínimo e o escolhi exatamente e exclusivamente por que me importo sim com o que você produz e me importo também com a forma que você interage no fórum. Nós os moderadores utilizamos o perfil do usuário para colocarmos os avisos e é importante que você visite seu perfil todo dia para verificar se tem alguma coisa. Não se sinta incompreendido, não se sinta excluído, sinta-se apenas corrigido. Levar essa situação como uma experiência é de fato o melhor a fazer. Espero você - no término do prazo das 24 horas - lá no fórum, me procure quando chegar."

quarta-feira, 23 de maio de 2012

ALGUMAS QUESTÕES










Não sou especialista em cinema, mas pelo que sei, há diferença entre conceitos entre filme pornô e erótico. O primeiro é sexo explícito, enquanto o segundo, apesar das cenas eróticas, há roteiro e diálogo.


Uma famosa apresentadora infantil participou de um filme erótico Amor Estranho Amor e nessa semana, por causa de uma entrevista que ela deu no fantástico, está sendo alvo de criticas. Mas, não estou entendendo o motivo das pessoas a detonarem. No filme, Tarcísio Meira e Vera Fischer atuam e eles sempre integraram o primeiro time de atores da Globo, nunca fariam um filme pornô.


Tudo bem que foi uma apresentadora infantil, mas na época era uma jovem modelo que recebeu um convite para fazer um filme. Que hipocrisia, quem nunca fez um trabalho que se arrependeu depois?


Ao invés de criticar a pessoa Xuxa, por que não levantar a liberdade de expressão, já que o filme foi censurado vários anos? Onde a Xuxa trabalhava? Quem solidificou a personagem Xuxa como ícone das crianças dos anos oitenta? Em que período histórico o Brasil estava vivendo? Por que durante anos o filme foi abafado?


O interessante é observar como a manipulação de uma grande mídia é forte, principalmente no período da Ditadura militar (1964-1985 ) em que o país vivia. Logo, durante muitos anos era vantagem para Globo não macular a imagem da apresentadora, já que era um produto rentável para emissora.



Vivíamos muitos anos de Ditadura e o senso crítico não era muito desenvolvido. As informações sempre foram manipuladas. O filme não era conveniente para os interesses dos poderosos da mídia que sempre mandaram e desmandaram.  

O enfoque deve ser esse. Na construção de personagens que são vendidos como produtos e como o cooperativismo da mídia prejudica a liberdade de expressão e artista. Foi isso que atrapalhou o filme ser exibido, não a Xuxa pessoa.

Se ela foi abusada ou não entre outras coisas, o problema é exclusivamente dela.


O problema é que a não podemos ser tão influenciados pelas corporações midiáticas. Precisa ter o senso crítico para não ser “massa de manobra”.


terça-feira, 22 de maio de 2012





Outra vez me pego na contradição de criticar os outros e esquecer-se de minhas próprias atitudes. 

Fiquei irritado porque uma pessoa me convida toda hora para participar da fazenda virtual do facebook. Quis até desconectá-la, mas vi que isso é uma besteira. Deixa ela me convidar toda hora. Não está me fazendo mal.

E eu que toda hora divulgo meus vídeos, também muitas pessoas me acham chatíssimo. Por que eu posso e ela não? Por que sou tão conveniente comigo mesmo e um julgador implacável em relação ao outro?

Pois é... o ser humano é tão falho, impulsivo e contraditório. Quando ouço na racionalidade do bicho homem, acho graça. Não somos só movidos pela razão e sim por impulsos irracionais. Somos selvagens. 

Enfim, procurarei não mais julgar os outros e olhar para meu próprio rabo. Inclusive não me importar com os convites para fazenda virtual. 

Aliás, criam-se gados virtuais na fazenda virtual?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

SCRAP AO VENTO


Não quero ter mais preconceitos. Qualquer ensinamento faz parte da construção da individualidade. 

Só não concordo com as receitas de bolo, o ser humano é complexo demais. Mas, aprender a ouvi é uma forma de se tornar melhor. 

Uma vez, me disseram que o sábio oriental valoriza o silêncio, enquanto o sábio ocidental que mostrar sua cultura. Não se estou engando, mais ficar calado e ouvir, em muitas ocasiões, é melhor do que arrotar soberba. 

Por isso, aprender com uma flor ao vento é o verdadeiro conhecimento. Muito mais do que ficar lendo vários livros para ter vocabulário para escrever textos vazios.

domingo, 20 de maio de 2012

CADA CASO É UM CASO





Já algum tempo ouço o argumento de que a vítima de bulling precisa reagir às agressões, usando a ironia e o sarcasmo e não se vitimizar. 

Compreendo que tem sentido este raciocínio, mas cada casa é um caso. Muitas vezes, as vítimas precisam de ajuda, porque rola uma violência sádica. 
O bullying tem vários níveis. Sofri certas implicâncias, mas ninguém me agrediu ou me jogou na lata de lixo. Sempre fui acima do meu peso. Também, nunca encontrei sádicos... Graças a Deus!!

Por isso, a escola e a família precisa ajudar a vítima. Tudo bem que ela precisa agir, porém sozinha não dá. Muitas vezes, a situação sai de controle. Imagina a situação de três ou quatro pessoas querendo te bater ou alguém tirar uma foto sua sem permissão, colocando-o em situação constrangedora nas redes sociais.
Nunca entendi as pessoas que gozam ao torturar uma pessoa. Será que ejaculam? Doideira.

 Realmente, há certas coisas que não entendo. É muito complexo para minha cabeça. 

OUTROS OLHARES



Falhas - Martha Medeiros


Uma das coisas que fascinam na cidade de San Francisco é ela estar localizada sobre a falha de San Andreas, que provoca pequenos abalos sísmicos de vez em quando e grandes terremotos de tempos em tempos.


Você está muito faceiro caminhando pela cidade, e de uma hora para outra pode perder o chão, ver tudo sair do lugar, ficar tontinho, tontinho. É pouco provável que vá acontecer justo quando você estiver lá, mas existe a possibilidade, e isso amedronta mas ao mesmo tempo excita, vai dizer que não?


Assim também são as pessoas interessantes: têm falhas. Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, onde tudo funciona e você quase morre de tédio.


Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize.
Pessoas, como cidades, precisam ser limpas, mas não ao ponto de não possuirem máculas. É preciso suar na hora do cansaço, é preciso ter um cheiro próprio, uma camiseta velha para dormir, um jeans quase transparente de tanto que foi usado, um batom que escapou dos lábios depois de um beijo, um rímel que borrou um pouquinho quando você chorou.


Pessoas, como cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis.
De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ser insensatas, ligeiramente passionais, demonstrar um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir desculpas depois, pedir desculpas sempre, para poder ter crédito e errar outra vez.


Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa necessidade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, ser generosas e abrir suas portas, devem nos fazer querer voltar, porém não devemos deixar 100% seguros, nunca.



Devem provocar uma pequena dose de apreensão e cuidado, nunca devem deixar os outros esquecerem que pessoas, assim como cidades, têm rachaduras internas, portanto podem surpreender.

Falhas. Agradeça as suas, que são o que humaniza você, e nos fascina.
Martha Medeiros

***

Tomei conhecimento desta crônica, através do blog:   http://patriciapirota.blogspot.com.br/2012/05/falhas-martha-medeiros.html

sábado, 19 de maio de 2012

Os Vingadores - The Avengers







Sinceramente, mesmo com o avanço da tecnologia, o ritual de ir ao cinema não há nada que substitua. A sala escura e a tela enorme nos envolvem, tornando mágica a experiência de assistir um filme.Por isso que não concordo com a ideia de que com a evolução tecnológica o livro e a ida ao cinema se extinguirão. Há o valor sentimental e experimental de cada um.

Os vingadores é um filme que estimula nossa fantasia de ser um super-herói. Como seria interessante viver um dos personagens poderosos. Porém, eles não são tão perfeitos assim. Percebi um olhar repaginado dos heróis. Vivem conflitos e possuem defeitos como nós.  Inclusive, domar o ego, os interesses e a raiva de cada um deles para que possam agir em grupo. Realmente, conviver em grupo, hoje em dia, é muito complicado. Vivemos numa época em que individualismo está em voga. No filme, mostra isso e como os heróis tentam se entrosar.

Todavia, encontrei elementos clássicos como a estética dos inimigos. O outro é sempre feio, covarde e fraco. É um estereótipo que sempre pairou no imaginário do cinema.

Os efeitos especiais são excelentes ( isso é óbvio, nem precisava comentar). Tem várias passagens engraçadas. O personagem do Homem de Ferro é hilário e não politicamente correto. Gostei muita da versão deste Hulk, percebi passagens de humor. Scarlett Johansson como viúva negra é tudo de bom...

Enfim, gostei de assisti o filme. Não é meu estilo de filme, mas foi bom viajar na imaginação e me reconhecer nos personagens. Ao termino da sessão, senti-me leve.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PRIVACIDADE, EXPOSIÇÃO E ÉTICA



Quero comentar algumas questões sobre a liberdade de expressão, privacidade e ética. 

Vivemos num mundo que da vez mais compartilhamos fotos e pensamentos em redes sociais. A exposição, em muitas ocasiões, pode ocorrer constrangimentos, mas se deve ter um bom senso para analisar. Por exemplo, tenho blogs e faço vídeos. Ser criticado por causa de um texto ou vídeo faz parte da democracia. Como tenho direito de gostar ou não, os outros também.

Agora, manipular minha imagem ou fazer perfis falsos para me denigrir, isso é coisa de gente mau caráter. Isso não aconteceu comigo, é um caso hipotético, porém, aconteceu isso com muitas pessoas. Discordar de uma opinião, surgindo um “debate caloroso” permite a diversidade de pontos de vistas. Mas, bullings virtuais envergonha a humanidade dita evoluída.

Outro fato, nesses últimos dias ficou sabendo de uma famosa atriz de novelas que suas fotos foram expostas na internet, por criminoso. Ouvi muitas pessoas dizerem que ela foi culpada, por tirar fotos comprometedoras no computador. Entretanto, o computador era dela e tinha todo o direito de fazer o que quiser desde que não prejudicasse os outros. Ela não foi otária, mas vítima como qualquer um de nós. Quando ouvi este comentário, lembrei-me dos casos de estupro anos atrás, em que se argumentava sobre a moral da vítima ou a roupa que usava. Todos sabem que um estuprador, quando quer fazer maldade, a vítima pode está com um vestido que tampa tudo, ele vai violentar.Estranho essa ideia de que a vítima tem parcela de culpa. Não! Isso é errado. Ninguém tem o direito de atentar contra o outro. 

Lógico, que é interessante aprender normas básicas de segurança na vida real e na internet. Porém, se precisa ter cuidado com a naturalização da invasão privacidade. A vítima não é “mané”, mas o criminoso que invade o computador alheio ou manipula informações para deixar constrangidas.


domingo, 13 de maio de 2012

FILME NOME PRÓPRIO( 2007)





Camila é intensa, um trator que passa por cima de tudo e todos. Machuca e é machucada. Mantem um blog, onde se expressa através da palavra. Como ela disse, para uma “leitora”, que seu blog não é um diário, mas um espaço que ela escreve e que não gosta, não lê e vai embora. É uma jovem empenhada em se tornar escritora. Sua vida é sua narrativa. 

Camila escolheu a escrita como forma de expressão. Sente-se vazia quando não escreve. Aliás, escrever a salva do vazio e a faz se reconhecer como alguém, é um ato de revelação sobre si mesma. Vive perto do coração selvagem da vida e cada palavra que surge na tela branca do computador é um grito, gozo, raiva, amor e obsessão. Realmente, como personagem é fascinante, porém, não queria me envolver com uma pessoa como Camila. É visceral demais. Seus amigos tentam ajuda-la, mas precisam sair fora para não ser consumidos pelo caos-Camila. Ela não tem consciência que machuca, nunca pensa. Só vive e escreve seu livro errante. 

O filme tem uma bela fotografia. Leandra Leal está muito bem( falar isso é chover no molhado.). Gostei que as cenas fossem mescladas com pequenos textos e barulhos de teclado. Acho que deu certa poesia para o filme, fazendo uma homenagem à literatura, provando que mesmo num mundo instantâneo de imagens efêmeras, a literatura ainda é eterna. 

Não pude deixar de pensar na questão da interatividade. Camila escrevia seus textos e publicava no blog em tempo real praticamente. Não há intermediários. Sua caixa de e-mail vivia cheia.  Fiquei imaginando Camila agora, na era do twitter e vlogs... Talvez, ela até iria curtir o twitter, mas o vlog não. Camila respira palavras, não imagens. Talvez fizesse vídeos experimentais...

Outro fato interessante é o filme foi lançado em 2007 neste curtíssimo período os objetos eletrônicos que apareceram nas cenas pareciam tão antigos. Parece que cada vez mais as coisas estão ficando obsoletas em intervalos cada vez mais breves.

Uma nota importante é que uma das roteiristas do filme Clarah Averbuck é uma escritora gaúcha, proveniente da geração de escritores que utilizavam a internet como canal de comunicação, através de blogs e fanzines, como o "CardosOnline", do qual foi colunista até 2001. Escreveu três livros: "Máquina de pinball", "Das coisas esquecidas atrás da estante" e "Vida de gato".

Enfim, quem gosta de literatura e cinema é uma boa pedida o filme. Também, faz pensar na interatividade que a internet proporciona e como que mesmo assim a solidão continua a atormentar as pessoas. A falta de comunicação continua, apesar da diversidade atua dos meios de comunicação.  Camila é muito solitária e isto a consome

• Direção: Murilo Salles
• Roteiro: Melanie Dimantas, Elena Soarez, Murilo Salles, Clarah Averbuck (romances)
• Gênero: Drama
• Origem: Brasil
• Duração: 130 minutos
• Tipo: Longa-metragem

sábado, 12 de maio de 2012

Mãe


Ensinou-me a observar, mas ainda não possuo seu olhar poderoso de águia. 

É uma mãe de verdade, não se projetou nos filhos como se fosse uma garotinha a brincar de bonecas. Viveu a maternidade plena, conhecendo o melhor e o pior de mim. Mesmo não concordando comigo, permaneceu ao meu lado no barco à deriva.

Às vezes, tenho medo de não conseguir retribuir o que faz por mim. Não sou você, sabe disso, né?  Carregarei comigo sua humanidade. A maior herança de todas. 

Escrevi esta singela homenagem ao som de Sonho Impossível - Altemar Dutra. Sua música predileta e que passou ser a minha também.


DETALHES




Já comentei por aqui, que muitas vezes não ligo muito para história do filme, mas os detalhes. Por exemplo, O Prólogo do Céu dos Cavaleiros do Zodíaco o que me chamou a atenção foi os cenários em erosão e as poças da água nas pedras carcomidas.  Lembrou-me alguns quadros surrealistas, principalmente na melancolia e no vazio. Realmente, gosto do anime Cavaleiros do Zodíaco, porque há uma preocupação dos detalhes. 

Mais uma vez, Athena se sacrifica pelo planeta Terra e tenta proteger seus cavaleiros. Dá o controle do mundo para irmã Artêmis, a Deusa da Lua.  Logo, o vazio impera no planeta e o santuário de Athena parece que se desmancha na água e na areia, caindo na imensidão do esquecimento.

Então, comecei a pensar que será que o final dos tempos será assim? Uma imensidão vazia surgir e a gente andar entre poças de águas cristalinas e caindo em barrancos, devido à erosão. Como se tudo que acreditamos se desmanchasse, inclusive, a memória.

Lógico que houve a superação dos heróis, para salvar o mundo. E apesar da melancolia ao assistir o desenho, tive a certeza de que mesmo não sendo um cavaleiro e nem poderes fantásticos, lutarei para sobreviver.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

X-MAN: PRIMEIRA CLASSE




Ao assisti-lo não pude deixar de me lembrar de assunto cíclico que sempre me ronda: O trauma, que “em grego significa ferida e que, quando não são sanadas, as pessoas se tornam monstros”. Ouvi esta frase no filme Ilha do medo (2010). 

O filme mostra a origem dos personagens mutantes e algumas coisas ficaram mais claras para mim. Lógico, que para quem já acompanha os X-MAN desde as revistas em quadrinho, minhas conclusões serão óbvias. Mas, é ao termino da história, comecei a pensar como é difícil não se entregar às magoas. 

Principalmente o Magneto, que na sua infância sofreu vários tipos de tortura e a mãe foi assassinada por nazistas. Seu alvo de vingança era um poderoso mutante. Magneto quis tanto se vingar, que acabou se tornando igual ao seu algoz. Isso é muito estranho, esse mecanismo da vingança de um se tornar a imagem e semelhança do outro. 

Comecei a ter outro olhar em relação a ele. Não é um vilão somente, mas uma pessoa ferida no corpo e na alma e que a acha a humanidade repugnante. Por isso, que crê que ao destruir os “ homens comuns”, protegerá os seus: os mutantes.

Charles Xavier quer a paz entre os homens e os mutantes. Tenta persuadir Magneto, todavia o ódio predomina. Rompem a amizade e a primeira classe é dividida entre os dois. 

Sinceramente, gostei muito mais da Primeira Classe em relação aos outros filmes do X-MAN. Acheis os personagens mais profundos e oblíquos, logo, mais reais. Inclusive, reafirmar que as pessoas comuns, quando são feridas, podem cometer atrocidades.  O torturado pode ser o carrasco em outra situação. Não precisar ser psicopata. 

domingo, 6 de maio de 2012

A dor Marguerite Duras, 1985




Terminei de ler o livro no sábado. Mas, antes de escrever sobre livro, relatarei quando conheci a autora francesa, já falecida. Quando era adolescente assisti ao filme O AMANTE( 1992), baseado no livro de Marguerite Duras, onde conta a história de uma garota, filha de colonos franceses em dificuldades financeiras e que vivem no Viatinã, envolve-se com um chinês rico e bem-sucedido, muito mais velho do que ela, depois que ele oferece uma carona em sua limusine. A paixão que surge entre os dois é alvo do forte preconceito da sociedade, que não aceita nem a diferença de idade, nem a de classes, o que acaba interferindo no relacionamento. Anos depois, li o livro e o adorei. A narrativa tem imagens lindas e ao mesmo tempo enxutas. Mesmo com poucas páginas, não deixa de ser um grande livro. Em 2009, comprei dois livros da autora por um real numa feira de livros. Primeiro li OLHOS AZUIS, CABELOS PRETOS e, agora A DOR. 

No primeiro livro, A imagem do título veio a minha mente como características não muito comuns do que se vê por ai. Uma pessoa loira de olhos claros é mais corriqueira, por exemplo. Portanto, o título se refere a um personagem de passagem, um estrangeiro-exótico que se transforma em uma quimera para uma mulher de comportamentos não convencionais e um homossexual. Ele será o elo que ligará estes dois personagens. O homossexual é apaixonado por uma visão, apenas conheceu o rapaz de vista. Ela ama uma ilusão, conheceu-o somente por encontrá-lo num hotel. Desesperados e melancólicos por perder o rapaz de olhos azuis e cabelos pretos, o homem e a mulher se encontram num café e começam a construir uma estranha relação. Com o passar do tempo, essa mulher apaixona-se por esse homossexual que sente atraído, com medo e repulsa dela, em vários momentos. Todavia, insiste em vê-la nua e lhe toca enquanto ela dorme. O livro mostra uma crise existencial entre os dois personagens.

Em A DOR, Marguerite Duras como no Amante mescla suas experiências pessoais e a ficção para mostrar como era o cotidiano antes, durante e depois da guerra. O foco do livro não no fronte de batalha, mas na busca de informação dos que foram deportados pela Alemanha, a dor da separação, a luta da resistência francesa contra a ocupação alemã. Mostra como uma guerra modifica cruelmente as pessoas. “ A dor é uma das coisas mais importantes de minha vida.”, diz Marguerite Duras.

O livro é um diário que se divide em partes: A primeira é o relato da busca de notícias de Robert L, da angústia da espera de não receber informações. A narradora, Marguerite espera seu marido, vive na sua ausência, não conhece outro mundo que não o de aguardá-lo. Diz que não se recorda quando escreveu caoticamente na dor. 

Em seguida, outro fragmento do diário: O. SR. AQUI CHAMADO DE PIERRE RABIER. Realmente, agostei mais dessa passagem do livro. Porque fala do agente da gestapo sem maniqueísmo. É descrito como uma cara que persegue os membros da resistência e captura os judeus, não por ser psicopata, mas por desejar ser dono de uma livraria. Também, tinha uma fé inquestionável da supremacia alemã. A autora-personagem tinha encontro com eles nos cafés e livrarias. E o senhor Pierre Rabier relacionava-se amistosamente com seus prisioneiros, mesmo levando-os à morte. Enfim, era um pai de família mediano, que foi condenado por seus crimes.

Outra parte do diário: TER, O MILICIANO. Mostra Thérèse(Marguerite Duras) que tortura um senhor delator de judeus e de pessoas ligadas à resistência, em busca de informações. E seguida conta a história de um jovem que trabalhava para os alemães para ter carro, luxo e mulheres. Era um rapaz que não refletia, só era movido pelo prazer e pagará um preço caro por isso. “Thérèse sou eu, Aquela que tortura o delator. Como também sou aquela que deseja fazer amor com Ter, o miliciano. Eu lhes dou aquela que tortura juntamente com os outros textos. Aprendam a ler: são textos sagrados.”

As duas últimas passagens do livro são literatura como frisa a escritora: 
“ ... Este texto felizmente não foi publicado durante quarenta anos. Eu o reescrevi. Agora não sei mais do que se trata. Mas é um texto para o futuro, e talvez seja um bom roteiro de cinema.”

“ Foi inventado. Foi um amor incontrolável pela menina judia abandonada.”

Por fim, A DOR é um livro fragmentado, não linear e um representante da literatura contemporânea que rompe com o convencionalismo da literatura tradicional.



A mistura de realidade e ficção evidencia como é complexo o mundo em que vivemos. Como ao longo do tempo, os ser humano é instável essencialmente.

Ao termino do livro me questionei de muitas coisas... Será que sou forte o bastante para dor da perda? De enfrentar a verdadeira face do mau? De não ser um filho da puta egoísta que foge numa situação limite? Quem sou eu realmente? Vítima, vilão, inocente, culpado, perseguido ou perseguidor? Marguerite Duras passou por essa fragmentação neste livro. Foi escritora, narradora, personagem, vítima, algoz, soldado e mulher.


sábado, 5 de maio de 2012

MEMÓRIA HISTÓRICA E AFETIVA




Recordo-me que quando era criança nos anos oitenta e adolescente no início dos anos noventa, não se usava muito moedas só notas de dinheiro. Vivia-se numa época de inflação galopante e recessão. Então, ficava inviável utilizar moedas naquela época.

Eu acho curioso como nas nossas memórias afetivas existem elementos da História. Recordo-me que quando o Plano Real (27 de fevereiro de 1994 )  se consolidou, tinha toda uma conscientização de que moeda era dinheiro e que não se podia jogar fora. Isso foi complicado para mim, só gostava das notas e desprezava as moedas. Levei um tempo para me adaptar.

Tudo bem que cada indivíduo tem um olhar singular e um jeito de lidar com a vida, mas não se pode negar a influência do meio externo. Se observarmos nossos pensamentos, existe uma ordem do discurso coletivo. Por isso uma analise abrangente e interdisciplinar ajuda a compreender a complexidade do ser.

Uma vez, quando estava fazer um curso de literatura, ouvi falar pela primeira vez da Nova História, que se fundo com as ciências sociais, inclusive à sociologia, proporcionado novos instrumentos de pesquisa, encontrando diferentes respostas e questionamento. Com a nova história não se estuda mais um sujeito em particular, nem muito menos o que esse indivíduo fez, estuda-se quem ele foi ou o que ele fez a partir de várias analises: psicológicas, econômicas, sociais, políticas, culturais, religiosas, as estatísticas, o imaginário das pessoas, as histórias orais, os documentos, etc. Tudo isso interpretado de várias formas. Por tanto a nova história abandona o pensamento de que nenhum fato ocorrido poderia ser repetido, rompendo assim com a história linear e criando uma história cíclica.

Então comecei a pensar que para entender a história, não adianta só ler livros de História e os jornais. Precisa ouvir os mais velhos, escutar um depoimento de uma pessoa comum e não ter preconceitos. Cada elemento, mesmo uma singela lembrança, ajuda a compreender o mundo.

Outro fato importante, quando ouvir a notícia de que aumentará ou não a taxa de juro, apesar dos nomes incompreensíveis, com certeza isso influenciará minha vida e de você também, leitor. Apesar, lógico, dos diferentes pontos de vistas de cada indivíduo.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

UMA QUARTA-FEIRA QUE É SEGUNDA-FEIRA




Acordar no primeiro momento é angustiante, quero desparecer. Mas, não posso me afundar em mim. Poxa vida! Estou vivo e tenho uma família ótima. Não posso ser rabugento.
Encararei esta quarta-feira com cara de segunda. Retomarei o trabalho e tentarei consertar os erros brevemente suspensos por causa do feriado. Hoje de manhã estava muito frio e demorei a levantar. 

Agora, no quarto tento escrever esta conta. Tinha várias ideias na cabeça, mas só escrevi dois parágrafos.  Não acredito! Imaginei que escreveria várias laudas sobre o dia de hoje.

Vamos lá... o trabalho em muitos aspectos é torturante, principalmente para uma pessoa que vive no mundo da lua( como eu). Entretanto, por outro lado pode ajudar como a ter noção de responsabilidade e disciplina. Vejo que preciso chamar a responsabilidade para mim, mesmo que quase me atrasei por não ter forças de sair da cama. Só que consegui chegar a tempo, tive uma carona até o ponto de ônibus. Venci minha preguiça, com ajuda da carona. Talvez não ganhe muitos pontos, porém se tivesse deitado até tarde, perderia a ajuda também. Tenho meus méritos.

Essas pequenas vitórias me realizam. Gosto de perceber que posso me adaptar a qualquer ambiente e superar minhas limitações. Não realizei os “ grandes projetos” da juventude, mas ganhei um prêmio nos meus trinta e três anos, o autoconhecimento. Não querer mais mostrar para o outro que sou capaz. Viver em mim com as virtudes e os defeitos. Ser adulto é adaptar os sonhos e a realidade, não é desistir. (Já escrevi e falei sobre isto, estou repetitivo).

Enfim, construí a felicidade de acordar nesta quarta que é segunda. Não vou entrar no casulo, serei eu: fragmentado, contraditório, frágil e valente. 
 E mesmo que nunca encontre um trabalho que me satisfaça, o pensamento de viver é mais forte, para isso, preciso trabalhar. 

-BOM DIA SOL!!! BOM DIA VIDA!!!


***
Sei lá, depois de escrever esta crônica, estou pensando se estou dizendo inverdades. Na realidade, sou um rabugento na essência... No entanto, o ideal de que se deseja ser  faz parte da nossa individualidade.



terça-feira, 1 de maio de 2012

FÚRIA


OUTROS OLHARES


Fazer 30 anos


Affonso Romano de Sant'Anna




QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.


Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.


Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.


Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.


Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.


Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.


Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.


Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.


Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.


Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.


Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.


(13.10.85)


Fonte do texto: http://www.releituras.com/arsant_30anos.asp

EM BUSCA DA FORMA




Escrevo, gravo e não dá certo. Faço novamente. Desânimo e ansiedade, mas não posso desistir. Os tropeços vêm antes do salto mortal. Não posso me aborrecer com as críticas, tenho que usá-las ao meu favor, para continuar a minha busca. Deleto, deleto, deleto. Não tenho estilo, as ideias derramam, mas não consigo moldá-las. Mas por que continuo? É que não só desejo me transformar em artista. Estes ensaios me salvam.