segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Quando Partimos (Die Fremde, Alemanha, 2010)




Acabei de assistir o filme Quando Partimos (Die Fremde, Alemanha, 2010). A história de uma jovem alemã com descendência turca e que foge com o filho para Alemanha, para escapar do marido violento em Istambul. Ela decide dar um basta nas agressões sofridas nela e no filho de cinco anos. Na minha visão ocidental, acho bárbara a submissão das mulheres, inclusive, nos países islâmicos.


Mas será que estou sendo etnocêntrico? Pode até ser, mas essas sociedades calcadas na religião e na tradição servem como um escudo para os psicopatas e pessoas transtornadas a fazerem o que desejarem. 

No filme, o marido da personagem se achava o dono dela e do filho, fazendo o que bem entendesse. A comunidade turca assinava embaixo, a mulher tem que ser obediente ao marido. Aqui no Brasil, várias mulheres ainda são mortas pelos namorados, maridos e noivos, porém, como o país é um estado laico, pelo menos, são julgados, condenados e presos( salvo os que têm muito dinheiro, ficam recorrendo recorrendo recorrendo).

Pelo caminho mais fácil, no filme, considero a personagem vítima de sua família, do marido e da comunidade turca.


O que é cultural? E o que é doentio ou cruel? Como achar a resposta sem ser etnocêntrico?  

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Uma crítica do filme: 
http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/filme/ver.php?cdfilme=11147

sábado, 28 de dezembro de 2013

A Consciência de Zeno de Italo Svevo, pseudônimo de Aron Hector Schmitz( 1925)





Confesso que este livro estava anos na minha estante, abria-lo e depois o fechava. Então, lia outros livros que achavam mais interessantes. Agora em 2013, resolvi lê-lo e foi um achado bacana. Não me arrendo de não tê-lo lido antes, porque não estava pronto para ele. Só agora.

O que achei mais interessante é que o romance mostra como escrever sobre si ajuda no autoconhecimento. Mesmo que se tente fugir disso muitas vezes. Inclusive o livro evidência como a gente é mal preparada para lidar com os sentimentos e, consequentemente, desenvolve-se doenças e dores físicas, sem motivos aparentes. Enfim, o corpo não é só máquina e sim alma.

O romance começa com um prefácio que faz parte do romance, não é um texto introdutório de outro escritor sobre a obra. O Doutor S. diz que é psicanalista do protagonista Zeno que publica a biografia do paciente por vingança por ter abandonado o tratamento e que dividiria até os direitos autorais se voltasse ao tratamento.

Em seguida, Zeno escreve sobre suas memórias desde a infância, o casamento, a vida adulta e profissional. Durante toda a sua vida sofrera de dores e doenças, que não tinha origens físicas, mas de sua própria cabeça. Como se conceituava, era um doente imaginário, o qual tem consciência de estar doente. Diferente do doente real, que não percebe a doença se manifestando.

O narrador-protagonista constrói uma narrativa irônica, principalmente por criticar a sociedade burguesa que vive de aparências. Zeno tropeça pela vida, tentando desempenhar o papel de cidadão honrado. Entretanto, fracassa e começa a contrair moléstias imaginárias e a ficar viciado no fumo.

Trocou de faculdades e não tinha dom de cuidar dos negócios do pai falecido. Casou com a mulher que não havia escolhido e mesmo amando-a depois, traiu-a. O personagem é típico da literatura contemporânea, mergulhado em um cotidiano enfadonho. É um anti-herói, que se diferencia dos personagens do romantismo e da tragédia.  

A reflexão sobre as impressões e lembranças, submetidas ao olhar implacável, mordaz e às vezes hilariante de Zeno, consegue libertar-se das mazelas e não de suas pequenas obsessões. Todavia, descobre que pode lidar com elas.

Percebi, quando terminei o livro, que Zeno debocha até da psicanálise. Discorda do diagnóstico do psicanalista. Pois, não é verdadeiro nas suas memórias. Inventa algumas coisas, manipulando o olhar do terapeuta.

Outra parte do livro que me chamou a atenção foi a reflexão de Zeno em relação ao homem com a natureza. Que diferente dos outros animais que vivem a natureza, produzem artefatos que enfraquecem sua essência. Curioso que o romance seja tão atual apesar de mais oitenta anos de sua publicação.

Concordo plenamente, esses objetos se torna um problema, quando a tecnologia deixa de ser um acessório, tonando-se parte do ser humano.

Chega até ser profético o autor através das reflexões de Zeno ao dissecar o homem. Prevendo até as catástrofes da Segunda Guerra Mundial, devido a esses artefatos.

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Sobre o livro:









sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

contradição ambulante





Fiz 35 anos, com corpinho de cinquenta e cinco e a cabeça de cinco... Enfim, uma contradição ambulante. Mas, gosto disso.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

As intermitências da Morte — José Saramago



"Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto" José Saramago
Quando comecei a ler o livro, fui ao dicionário para saber o que é intermitência: 
sf (intermitente+ia2) 1 Qualidade de intermitente; descontinuação. 2 Interrupção momentânea. 3 Interrupção numa série. 4 Intervalo em fenômenos periódicos. 5 Med Manifestação característica de certas febres ou outras doenças por acessos intervalados, fora dos quais o doente parece curado. 6 Fenômeno patológico caracterizado por haver, entre duas pulsações, um intervalo muito maior do que entre as outras; arritmia.

Depois que aprendi uma palavra comecei a ler o romance que tem a mesma estrutura do Ensaia sobre a Cegueira, os personagens não tem nomes e a narrativa parece um ensaio, o qual mostra a prováveis experiências, sensações se o acontecimento se concretizasse. Em Intermitência o romance é panorâmico, mostrando vários casos sobre a ausência da morte. Divida-se em três blocos. Outro ponto bacana é que o narrador não um narrador tradicional que sabe de tudo, pelo contrário, faz retificações durante a narrativa, conversando com o leitor.

O primeiro é a intermitência da morte, uma visão panorâmica dos acontecimentos a partir do dia primeiro de janeiro, quando nenhuma pessoa não morreu mais naquele país fictício.

Nessa parte são colocadas as contradições da falta da morte, começa a surgir especialistas nos meios de comunicação para falar a respeito, o governo procura soluções, a Igreja tenta manter a fé e a formação de organização, a Maphia, a qual levava os moribundos para descansarem em outro país, já que não se morriam no lugar de origem. Logo, discuta-se a questão da moral e ética, inclusive, o autor com muita ironia faz uma crítica em relação burocracia do Estado, que leva muitas vezes um país à derrocada.

O Segundo bloco uma carta é conduzida pela morte a uma emissora de televisão, para que seja levada ao público a notícia de seu volta. Ela se ausentou por algum tempo, porque não gostava do tratamento que sofria ao longo do tempo. Muitos tinham medo e até raiva dela.

Então, queria mostrar que ela era importante também para a humanidade. O interessante que ela escreve na carte morte e não A Morte. Na verdade, é uma morte específica de pessoas. O leitor percebe que o personagem principal dessa história é a morte, esquelética e gelada. Todavia, para o romancista, modificar a morte em personagem se torna um jeito de tratar da vida, com humor e ironia.
O retorno vem com novas regras. Ela enviará uma carte em um tempo estabelecido ao indivíduo que morrerá, assim ele terá de se despedir da família, amigos e resolver questões da herança. Essa novidade levará reações diversas nas pessoas, uns fazem orgias, outros praguejas e houve pessoas resignadas que se despediram das pessoas queridas.

O último bloco é que uma carta foi devolvida para Morte. Então, ela fica surpresa e vai conhecer o homem que não recebeu a missiva. Era um violoncelista que vivia sozinho com seu cão. A partir daí Morte se humaniza e se apaixona pelo músico. Torna-se mulher e o músico ficou atraído por ela.

Saramago ao tornar a morte como personagem nesse livro proporciona uma reflexão como também faz parte da nossa vida. E que não deve só temê-la ou odiá-la. Mas, amá-la também, pois faz parte da nossa própria vida.



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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Mãe

Foto: Mãe coragem

 Mãe força

 Mãe justiça 

Mãe protetora

 Mãe mulher

 Mãe amor 

Enfim, todas as mães a mãe.

Mãe coragem

Mãe força

Mãe justiça

Mãe protetora

Mãe mulher

Mãe amor


Enfim, todas as mães a mãe.


QUERO CRER ( pensamento escrito em 17/12/2008)

Sei que isto não é legal, mas desconfio de todos. Não sei se estão dizendo a verdade ou representando. Às vezes, pego-me a simular como um ator de quinta; na televisão, quando alguém levanta uma causa ou expõe sua via, fico ressabiado e indagando qual a vantagem que ele leva. Reafirmo, não quero pensar que as pessoas sempre estão com segundas intenções. A minha mãe sempre diz que há indivíduos que julgam todos ladrões, porque se respaldam em suas personalidades obscuras. Não quero ser assim, dá-me arrepios. Entretanto, ao observar a tv aberta, acho tudo tão espetaculosamente tosco e desumano que fica difícil acreditar na inocência e a generosidade da nossa sociedade.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Pedro J. Bondaczuk

Nada do que se impõe pela força prospera, dura e produz bons efeitos de longo prazo. Em princípio pode, até, parecer que é eficaz. Não passa, todavia, de ilusão. Educar não é impor, mas é, sobretudo, convencer, conquistar corações e mentes e persuadir. O educador que não tem isso em mente não está preparado para essa magna tarefa. Frank Clark constatou, com grande lucidez: “Pode-se levar uma eternidade para conquistar o espírito do homem pela persuasão, mas ainda assim é mais rápido do que conquistá-lo pela força”. Mais rápido e o único meio verdadeiramente eficaz. Se quem educa não tem argumentos para persuadir o educando da correção daquilo que quer transmitir, é porque não tem convicção a respeito. Em vez de educar, precisa ser educado. A força só tem alguma eficácia (e assim mesmo, em certos casos) para tarefas meramente braçais. No mais, é pura perda de tempo e de energia. E, sobretudo, de oportunidades.

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Pedro J. Bondaczuk, jornalista.

Autoavaliação




Autoavaliação como aspirante a escritor:

Ideias 7,0

Coesão e coerência 3,5

estética do texto 3,5

ortografia 3,6

Concordância 3,0

Paciência 2,1

Força de vontade 8,0

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Preciso melhorar, " vamo que vamo"...



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cenas de um casamento e Amor

Assisti Cenas de um Casamento de Ingmar Bergman e ouvi uma frase muito interessante dos personagens... " Somos analfabetos emocionais, nos ensinam matemática, fórmulas e modos de agricultura e não nos ensinam a compreender a alma humana.". Não sou cinéfilo, mas gosto da abordagem do personagem ao mostrar a obscuridade que existe nas pessoas e como elas tentam esconder, ficando na superfície e representando terem uma vida feliz. Lembrei-me de Persona do mesmo cineasta.
Há dez anos Johan e Marianne são casados e aparentam possuir sucesso em suas carreiras. Com as duas filhas, eles levam uma vida confortável. Mas, na realidade, não vivem o verdadeiro sentimento do casamente, parecem que brincam de bonecas. Até que, um dia, Johan se separa de Marianne e o castelo de areia se desfaz. Eles ainda se gostam, mas o cotidiano enfadonho e o desgaste de desempenhar um bom papel de casal feliz perante aos outros corrói a relação deles.

O filme é dividido por capítulos e teve um que me chamou a atenção. Marianne é advogada e atendeu uma senhora que queria se divorciar, mesmo o marido sendo bom com ela. O motivo de pedir o divórcio foi que nunca amou o esposo e nem os filhos, apesar de desempenhar bem o papel de dona de casa e mãe.

Enfim, é uma história que faz uma crítica a Instituição do casamente e como as pessoas se prendem a aparência, não se importando com a própria individualidade. Levam a vida como marionetes.  

Ontem, assisti Amor de Michael Haneke que narra a história de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) é um casal de aposentados, têm uma filha que vive com a família fora do país. Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. O casal de idosos passa por dificuldades, que colocarão o seu amor à prova.

Amor é belo, mas não há sentimentalismo e nem uma trilha sonora que provoca choro. Pelo contrário, não há música. Mostra a nudez e a crueza de uma doença degenerativa. Mas, mesmo com a adversidade, o casal vive o verdadeiro amor, o qual cabe todos os outros amores.

Na verdade, Georges e Anne viveram a plenitude do casamento, passaram pela fase da sedução, sexo, cotidiano, filho e a velhice. O amor entre eles foi se transformando em amizade, fraternidade e maternal e paternal. Mesmo com a doença de Anne, Georges continuava a amá-la.  Eles eram um só.

Enfim, os dois filmes servem como ótimas reflexões sobre como queremos viver e nos relacionar. Dão um pequeno panorama sobre o casamento.

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Segue as críticas para quem estiver interessado nos filmes:

Crítica aprofundada do filme Cenas de um Casamento  http://www.rua.ufscar.br/site/?p=5608

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Violência nos estádios





Governo brasileiro condena violência no Atlético Paranaense-Vasco da Gama
foto CARLOS MORAES/AGENCIA O DIA/REUTERS


Concordo cada vez mais com o discurso que estamos vivendo numa sociedade com valores psicopatas.

Quando assisti as cenas de violência, pensei que todos eram psicopatas. Exagerei, nem todos. Pode haver alguns que lideram a maioria ( um bando de gente sem cérebro) a cometer as barbaridades. Como os psiquiatras dizem, o psicopata é muito inteligente e sedutor.

O que me assusta são esses valores que estão mais corriqueiros, tornando-se parte da cultura da nossa sociedade. Lembrei-me da palavra empatia:
“sf (gr empátheia) Psicol Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma obra de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo.”( Michaelis)

 Se observarmos o comportamento no trânsito e no cotidiano, concluiremos que há uma diminuição de empatia entre as pessoas. O individualismo aumenta e não há o reconhecimento do outro. Convivemos a falta de sensibilidade, transformando o mundo cruel e frio.  Para mim, violência gratuita tem que ser vinculada com crime hediondo. É tão sem sentido e absurda.

  Faço um apelo aos pais, mesmo que sejam importante às cobranças e o investimento para educação formal com intuito de melhores colocações na sociedade, ensinem seus filhos a serem pessoas de bem.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela

Imagem encontrada no google

"Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Cultivei ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver para alcançar."




Foi um grande pensador, porque ele usou a "educação branca", principalmente os ideais de liberdade que vinham desde a revolução francesa, e mesclou com o conhecimento local das aldeias africanas.

Ele entre muitos fizeram isso para construir a identidade do povo negro da África do Sul, antes havia etnias com dialetos diferentes.

Por isso, que havia uma minoria branca dominando a região, pois as tribos possuíam uma identidade própria e não tinham objetivos de se juntarem.

A figura do Nelson Mandela foi fundamental para englobar as tribos e construir a identidade do povo negro da África do Sul.  Não foi um líder local, mas mundial. Desejava que todo o mundo fosse livre da opressão.

Fez uma antropofagia cultural, não só copiou um modelo de pensamento de liberdade europeu e nem deixou de lado as culturas locais, tornando a luta pela liberdade autêntica e que serve de exemplo às gerações futuras. 

Inclusive para o Brasil.


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Esqueci-me, mas Mandela não só se importou com as ideias, mas com os sentimentos. O homem é feito deles também. Lembrei-me, então, da citação do filme alemão Metrópoles( 1927) que diz: "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!"
Não adiantam usar só a razão, os sentimentos nos tornam mais humanos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NEUROSE



É um assunto que não sai da minha cabeça. Comecei a pensar novamente sobre o tema, quando assisti a uma entrevista de uma crítica muito famosa de teatro.

Então, na minha cabeça altamente neurótica, imaginei o que ela iria escrever sobre meus textos ou contos. Mesmo que seja hipoteticamente, a probabilidade de ler alguma coisa minha, principalmente, ler meus blogs é zero. Talvez um contato com um extraterrestre a possibilidade será muito maior.


Comecei a sofrer e a falar mal a senhora crítica. Entretanto, percebi que a raiva que sentia era sem propósito. 

Sempre fui assim, em adivinhar o passo das pessoas. Saber quando vai surgir a pancada. Foi uma forma de defesa que construí ao longo do tempo.  Muitas vezes, isso proporciona de me estressar por algo que nunca aconteceu. Uma vez, meu pai me contou a história do macaco, não o bicho e sim o instrumento para trocar pneus.  O enredo é mais ou menos assim, o pneu do carro fura e um cara procura uma oficina, então ao caminhar na busca, constrói vários casos hipotéticos que o mecânico não emprestará o macaco, será ignorante com ele ou tentará roubá-lo. Ao chegar à oficina, quando o mecânico atende, o cara o xingar, vai embora raivoso e nem espera se outro o ajudaria ou não.

Enfim, se ela não gostar do que escrevo está no direito dela. Como estou no meu a continuar. A crítica é importante para a arte, mas não é uma sentença. Tanto uma como outra são subjetivas. Não tem como analisá-las como uma ciência exata.


Talvez, só tempo dirá se uma obra artística veio para ficar ou não.  Assim sendo, não tenho necessidade de sofrer com críticas em as que nem aconteceram. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Trecho O Jogo da amarelinha. Julio Cortázar



Cada vez mais reforço a ideia que qualquer tipo de arte é fundamental para se compreender o mundo. Quando li este capítulo em O Jogo da amarelinha de Julio Cortázar tive o prazer de encontrar um tesouro, inclusive, por mostrar que para reviver o passado, a arte é fundamental.
O passado já se foi, mas podemos revivê-lo através da nossa imaginação, que é alimentada por meio de um poema, conto, quadro, uma brincadeira infantil, como brincar com a chama de uma vela, ou o lúdico de um jogo de um jogo antigo.



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105
Morelliana.
Penso nos gestos esquecidos, nos muitos salamaleques e palavras dos nossos avós, pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um atrás do outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela sobre a mesa e, para brincar, acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar causado pelo movimento ia apagá-la e, então, vi levantar-se sozinha a minha mão esquerda, abrigando e protegendo a chama como uma cortina viva que afastava o ar. Enquanto o fogo se endireitava, outra vez alerta, pensei que esse gesto fora o gesto de todos nós (pensei nós e pensei bem, ou senti bem) durante milhares de anos, durante a Idade do Fogo, até que a trocaram pela luz elétrica. Imaginei outros gestos, o gesto das mulheres levantando a ponta da saia, o gesto dos homens procurando o punho da espada. Como as palavras perdidas da infância, escutadas pela última vez na boca dos velhos que iam morrendo. Em minha casa já ninguém diz “a cômoda de cânfora”, já ninguém fala das “trebes” - as trébedes. Como as músicas do momento, as valsas dos anos vinte, as polcas que enterneciam nossos avós.

Penso nesses objetos, nessas caixas, nesses utensílios que aparecem às vezes em galpões, em cozinhas ou esconderijos, e cujo uso já ninguém é capaz de explicar. Vaidade de crer que compreendemos as obras do tempo: o tempo enterra seus mortos e guarda as chaves. Somente nos sonhos, na poesia, no jogo - acender uma vela, andar com ela pelo corredor -, aproximamo-nos às vezes do que fomos antes de ser isto que ninguém sabe se somos.