sábado, 28 de dezembro de 2013

A Consciência de Zeno de Italo Svevo, pseudônimo de Aron Hector Schmitz( 1925)





Confesso que este livro estava anos na minha estante, abria-lo e depois o fechava. Então, lia outros livros que achavam mais interessantes. Agora em 2013, resolvi lê-lo e foi um achado bacana. Não me arrendo de não tê-lo lido antes, porque não estava pronto para ele. Só agora.

O que achei mais interessante é que o romance mostra como escrever sobre si ajuda no autoconhecimento. Mesmo que se tente fugir disso muitas vezes. Inclusive o livro evidência como a gente é mal preparada para lidar com os sentimentos e, consequentemente, desenvolve-se doenças e dores físicas, sem motivos aparentes. Enfim, o corpo não é só máquina e sim alma.

O romance começa com um prefácio que faz parte do romance, não é um texto introdutório de outro escritor sobre a obra. O Doutor S. diz que é psicanalista do protagonista Zeno que publica a biografia do paciente por vingança por ter abandonado o tratamento e que dividiria até os direitos autorais se voltasse ao tratamento.

Em seguida, Zeno escreve sobre suas memórias desde a infância, o casamento, a vida adulta e profissional. Durante toda a sua vida sofrera de dores e doenças, que não tinha origens físicas, mas de sua própria cabeça. Como se conceituava, era um doente imaginário, o qual tem consciência de estar doente. Diferente do doente real, que não percebe a doença se manifestando.

O narrador-protagonista constrói uma narrativa irônica, principalmente por criticar a sociedade burguesa que vive de aparências. Zeno tropeça pela vida, tentando desempenhar o papel de cidadão honrado. Entretanto, fracassa e começa a contrair moléstias imaginárias e a ficar viciado no fumo.

Trocou de faculdades e não tinha dom de cuidar dos negócios do pai falecido. Casou com a mulher que não havia escolhido e mesmo amando-a depois, traiu-a. O personagem é típico da literatura contemporânea, mergulhado em um cotidiano enfadonho. É um anti-herói, que se diferencia dos personagens do romantismo e da tragédia.  

A reflexão sobre as impressões e lembranças, submetidas ao olhar implacável, mordaz e às vezes hilariante de Zeno, consegue libertar-se das mazelas e não de suas pequenas obsessões. Todavia, descobre que pode lidar com elas.

Percebi, quando terminei o livro, que Zeno debocha até da psicanálise. Discorda do diagnóstico do psicanalista. Pois, não é verdadeiro nas suas memórias. Inventa algumas coisas, manipulando o olhar do terapeuta.

Outra parte do livro que me chamou a atenção foi a reflexão de Zeno em relação ao homem com a natureza. Que diferente dos outros animais que vivem a natureza, produzem artefatos que enfraquecem sua essência. Curioso que o romance seja tão atual apesar de mais oitenta anos de sua publicação.

Concordo plenamente, esses objetos se torna um problema, quando a tecnologia deixa de ser um acessório, tonando-se parte do ser humano.

Chega até ser profético o autor através das reflexões de Zeno ao dissecar o homem. Prevendo até as catástrofes da Segunda Guerra Mundial, devido a esses artefatos.

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Sobre o livro: