domingo, 12 de janeiro de 2014

Preciosidade, conto de Clarice Lispector



Narra a história de uma adolescente comum, que apesar de seu cotidiano de estudante, possuía algo intocado e misterioso, tornando-a preciosa:

“De manhã cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O que era vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.
Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso com uma jóia. Ela.”

   A jovem de quinze anos não queria ser observada, desejava manter sua preciosidade intacta, inclusive dos olhares masculinos. É a princesa de seu mundo interior, apesar das transformações de seu corpo que gritava nela, deixando-a desajeitada. Sentia-se feia, apesar de ser valiosa.

Um dia, quando saiu para ir à escola algo aconteceu. Dois rapazes a agarraram:

 " (..) foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos erradas de quem não tinha a vocação, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada,"  

Este acontecimento inusitado provocou-lhe uma revelação:
“Estou sozinha no mundo! Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!”

Na verdade, percebeu-se que não era mais uma menina e que já estava crescida. Portanto deveria ser comportar com uma mulher.

Os contos de Clarice sempre mergulham no interior da individualidade de seus personagens. Esse conto diz tanta coisa. 

Quem, quando adolescente, não se achou precioso ou preciosa e depois com as pancadas da vida, viu-se adulto e sozinho para resolver os problemas.

Os rapazes que a agarraram fizeram rachar o ovo em que ela estava e, agora, precisava alçar voo, mesmo que fosse árduo e dolorido.

Quando se torna adulto, nosso castelo de areia se esvai e precisamos sobreviver ao mundo, que muitas vezes é hostil.
***
O conto pertence ao livro Laços de Família