domingo, 29 de janeiro de 2012

OUTROS OLHARES


QUE PAÍS É ESSE?



Não sou muito politizado e sei que o Brasil precisa melhorar muito. Entretanto, percebo mudanças. Trabalho num cartório localizado num município do Rio de Janeiro, que é uma área industrial e rota de petróleo, e de uns tempos para cá vários estrangeiros chegam à região e fazem procurações, abrem firma e reconhecem assinatura. Também, brasileiros que viviam anos lá fora retornam, provocando um aumento de pedidos de transcrições de casamento e nascimento no cartório. Anos atrás, era o inverso, muitos brasileiros iam embora à busca de melhores oportunidades nos E.U.A, Europa e Japão.

O Brasil é uma potência e precisa se educar. Não é novidade para ninguém, que a corrupção e a ignorância atrapalham o desenvolvimento do país. Porém, as mudanças estão bastante rápidas e tenho a impressão que algumas pessoas não estão acompanhando. Continuam a achar que o país é uma droga e que nunca será de "primeiro mundo". Sempre fazem comparações com a Europa e um país em destaque, Noruega.

Lógico, que podemos utilizar ótimos paradigmas no outro continente, mas precisamos pensar em ideias e construir exemplos originais para melhorar o Brasil. Inventar uma nacionalidade própria e parar de tentar ser uma cópia barata de americano e europeu. Somos muito mais do que isso.

Nosso país tem um lado podre, sim. Todavia, é um lugar de gente trabalhadora e que luta todos os dias para melhorar de vida. É um lugar sem estereótipos, não deixa de ser vários fragmentos de realidade que estão construindo pontes ao longo do tempo para se tornar uma nação. Acredito nele. Lembro-me que quando era criança, o Brasil era muito pior que hoje em dia.

Porém, não sou adepto ao ufanismo usado na ditadura dos países da América Latina nas décadas de 60, 70 e 80 do século XX, a minha esperança é o surgimento de um patriotismo reflexivo e ético, o qual o torne mais justo e desenvolvido. E a insatisfação é um bom remédio, muitas vezes, para combater a corrupção que prejudica tanta o país. Só não concordo em rotular o Brasil como sem solução.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

AMOR DE CLARICE LISPECTOR



Na minha busca do que almejo ser, estou descobrindo que gosto de comentar um livro ou filme e compartilhar minhas opiniões. Ser um comentarista, não um crítico. Entretanto, não se pode negar a importância crítica das análises teóricas, para entender melhor a obra discutida.

O conto AMOR de Clarice Lispector de Laços de Família que faz parte do livro , à primeira vez que li, senti um estranhamento. Parecia que o texto tinha sido escrito por um alienígena. Anos depois ao reler o conto novamente, comei a compreendê-lo.

A história narra sobre Ana, uma típica dona de casa que quando vê um cego mascando chiclete na rua, percebe outras realidades diferentes da dela. Ela sai de seu mundinho e percebe a crueza da vida. Então, Ana, frui sentimentos contraditórios do nojo à admiração e piedade.

“O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.”

De repente, uma revelação invadiu-a e começo a ver a tudo com outros olhos. Muito diferente do mundo convencional e superficial em que vivia.

“As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.”

Quem nunca passou por isso? Quando tudo parece está tranquilo e do nada um gesto, um animal, uma pessoa ou circunstância nos deparamos com outros planos da realidade. Saímos de nós e nos voltamos para os outros. Esta experiência da personagem poderia acontecer com qualquer um, porque mostra um sentimento ou manifestação transcendental da alma humana.

Sei que é um conto muito conhecido de Clarice, mas quis comentar. O texto teve a mesma influência que o cego exerceu em Ana. Despertou-me para outros caminhos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O GRANDE GATSBY DE F. SCOTT FITZGERALD( 1925)








Para mim, o interessante da literatura é transformá-la como paradigmas ou conhecimento e aplicá-los na vida. Pois, a ficção e a realidade estão interligadas e uma influencia a outra. Ao ler o romance O GRANDE GATSBSY comecei a pensar sobre a idealização de um sonho e como podemos ser destruído por ele, como aconteceu com o protagonista do livro o misterioso Gatsby.

" ... Se isso fosse verdade, ele deve ter se sentido que perdera seu próprio mundo, que pagara um preço demasiado caro por viver durante tanto tempo alimentando um único sonho."

A história é contada pelo personagem-narrador Nick, que apresenta a efervescência das festas que Gatsby promovia na sua mansão de sonho e sua paixão por Daisy Buchanan.

A narrativa é ágil, mostrando a modernidade do início do século XX em ebulição. Característica marcante dos escritores contemporâneos. Nas passagens do livro carros, cinema, jazz, festas, trem, a cidade e a propaganda são um turbilhão de acontecimentos que perpassam pelas vidas dos personagens.

O escritor descreve muito bem este ambiente devido à sua vivência. Francis Scott Key Fitzgerald nasceu em Saint Paul, Minnesota, nos Estados Unidos, em 24 de setembro de 1896. É de família católica irlandesa, ingressou na Universidade de Princeton, porém não se formou. Anteriormente, li seu livro de contos O DIAMENTE DO TAMANHO DO RITZ E OUTROS CONTOS, onde como no romance descreve criticamente a alta sociedade norte-americana e sua falta de escrúpulos.

Jay Gatsby misteriosamente ficou rico e fazia festas com várias personalidades para chamar atenção de Daisy Buchanan, que era a personificação de seu sonho impossível e pagou um preço muito caro por isso. Daisy pertencia a uma classe que vivia na superficialidade e onde o consumo e as frivolidades eram mais importantes.

Enfim, O GRANDE GATSBSY é um romance que faz uma reflexão profunda da sociedade capitalista norte-americana do começo do século XX.


domingo, 8 de janeiro de 2012

O CAMINHO MAIS FÁCIL


Ficheiro:Rembrandt, Faust.jpg

Fausto, água-forte de Rembrandt.

Ao término de ler Fausto, percebi que não assimilei muitas passagens, mas gostei de ler o poema assim mesmo. A primeira leitura é fundamental, porque se desvenda uma vereda desconhecida, onde se pode encontrar algo fantástico.

Sempre tive medo de ser uma farsa, de ler somente resenhas e resumos dos livros e nunca lê-los realmente. Prefiro a ignorância a uma cultura superficial.

O poema é uma versão de Goethe de uma lenda alemã sobre um médico que faz pacto com o demônio. Na história do auto, o protagonista era um homem desgostoso da sociedade em que vivia e recorreu ao demônio Mefistófeles para viver num mundo repleto de prazeres.

Observei que no poema da ideia da escolha mais fácil para resolver os problemas, sempre foi apreciável no imaginário das pessoas. A tendência de o homem almejar o caminho mais rápido do que enfrentar os problemas sempre foi tentador ao longo dos tempos: Pactos para ficar mais inteligente e bonito, o lago da juventude, pílulas de felicidade e remédios que emagrecem rapidamente.

Tudo tem um preço e na moral da história o mais fácil e atrativo sai dispendioso no final. Fausto pagou muito prago ao fazer o pacto com Mefistófeles. Ao pensar sobre isso, comecei a ter a ideia de que o poema de Fausto é uma metáfora sobre a História da humanidade. Quantos Faustos e diabos existiram, originando guerras e mudanças no mundo.

Antes o do poema há o DIAÓLOGO PRELIMINAR entre o poeta, o empresário e o gracioso da companhia de teatro. Nesta parte, Goethe discute uma atual questão da arte no ponto de viste do artista e do empresário. O poeta deseja ser fiel a sua arte, mas o empresário e o gracioso argumentam que o sucesso e aceitação das pessoas são fundamentais para glória da sua arte. O artista sempre fica com este conflito de fazer o que gosta e a aceitação do público. Então, aparece um Mefistófeles que lhe oferece prestígio.

O caminho mais fácil sempre vai nos seduzir, porém será que vai solucionará nossos problemas? Essa é uma pergunta que paira no imaginário da nossa sociedade por várias décadas.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MEGAMENTE (2010)



É um filme de desenho animado computadorizado que como outros de sua geração descontroem os valores da sociedade, principalmente o bem e o mal. Não se pode esquecer a animação Shrek, um dos primeiros inverter valores e questionar a relação entre a beleza e a bondade ou a maldade com a feiura das histórias infantis clássicas.

Em MEGAMENTE, O vilão Megamente (Will Ferrell) almeja eliminar seu oponente Metro Man, dominando em seguida a cidade de Metro City. Entretanto, quando conseguiu, viu-se num vazio profundo, já que não tinha nenhum herói para combater.

A história expõe que desde o início o “vilão” foi marginalizado quando criança por for diferente, ao contrário do colega de classe bonito e cheiro de poderes, que futuramente se transformaria em Metro Man.

O curioso que este desenho e de outros se sua geração mostra como os valores maniqueístas estão sendo questionadas pela sociedade de hoje. Ao observarmos a História, desde a queda do Muro de Berlim houve uma pulverização e a ideia sólida do mundo dividido entre o bem e o mal( dependendo do ponto de vista) dissolveu-se.

Portanto, o desenho como outros pretendem mostrar que todos nós somos bandidos e mocinhos. O ser humano é muito mais complexo do que estereótipos. E que o verdadeiro vencedor e herói, não é o dotado de beleza e superpoderes, mas que consegue superar seus defeitos para ser tornar um indivíduo melhor.


***

Poema em linha reta


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


[538]


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.




E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.




Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...




Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,




Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?




Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?




Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.