terça-feira, 17 de janeiro de 2012

AMOR DE CLARICE LISPECTOR



Na minha busca do que almejo ser, estou descobrindo que gosto de comentar um livro ou filme e compartilhar minhas opiniões. Ser um comentarista, não um crítico. Entretanto, não se pode negar a importância crítica das análises teóricas, para entender melhor a obra discutida.

O conto AMOR de Clarice Lispector de Laços de Família que faz parte do livro , à primeira vez que li, senti um estranhamento. Parecia que o texto tinha sido escrito por um alienígena. Anos depois ao reler o conto novamente, comei a compreendê-lo.

A história narra sobre Ana, uma típica dona de casa que quando vê um cego mascando chiclete na rua, percebe outras realidades diferentes da dela. Ela sai de seu mundinho e percebe a crueza da vida. Então, Ana, frui sentimentos contraditórios do nojo à admiração e piedade.

“O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.”

De repente, uma revelação invadiu-a e começo a ver a tudo com outros olhos. Muito diferente do mundo convencional e superficial em que vivia.

“As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.”

Quem nunca passou por isso? Quando tudo parece está tranquilo e do nada um gesto, um animal, uma pessoa ou circunstância nos deparamos com outros planos da realidade. Saímos de nós e nos voltamos para os outros. Esta experiência da personagem poderia acontecer com qualquer um, porque mostra um sentimento ou manifestação transcendental da alma humana.

Sei que é um conto muito conhecido de Clarice, mas quis comentar. O texto teve a mesma influência que o cego exerceu em Ana. Despertou-me para outros caminhos.