quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

As intermitências da Morte — José Saramago



"Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto" José Saramago
Quando comecei a ler o livro, fui ao dicionário para saber o que é intermitência: 
sf (intermitente+ia2) 1 Qualidade de intermitente; descontinuação. 2 Interrupção momentânea. 3 Interrupção numa série. 4 Intervalo em fenômenos periódicos. 5 Med Manifestação característica de certas febres ou outras doenças por acessos intervalados, fora dos quais o doente parece curado. 6 Fenômeno patológico caracterizado por haver, entre duas pulsações, um intervalo muito maior do que entre as outras; arritmia.

Depois que aprendi uma palavra comecei a ler o romance que tem a mesma estrutura do Ensaia sobre a Cegueira, os personagens não tem nomes e a narrativa parece um ensaio, o qual mostra a prováveis experiências, sensações se o acontecimento se concretizasse. Em Intermitência o romance é panorâmico, mostrando vários casos sobre a ausência da morte. Divida-se em três blocos. Outro ponto bacana é que o narrador não um narrador tradicional que sabe de tudo, pelo contrário, faz retificações durante a narrativa, conversando com o leitor.

O primeiro é a intermitência da morte, uma visão panorâmica dos acontecimentos a partir do dia primeiro de janeiro, quando nenhuma pessoa não morreu mais naquele país fictício.

Nessa parte são colocadas as contradições da falta da morte, começa a surgir especialistas nos meios de comunicação para falar a respeito, o governo procura soluções, a Igreja tenta manter a fé e a formação de organização, a Maphia, a qual levava os moribundos para descansarem em outro país, já que não se morriam no lugar de origem. Logo, discuta-se a questão da moral e ética, inclusive, o autor com muita ironia faz uma crítica em relação burocracia do Estado, que leva muitas vezes um país à derrocada.

O Segundo bloco uma carta é conduzida pela morte a uma emissora de televisão, para que seja levada ao público a notícia de seu volta. Ela se ausentou por algum tempo, porque não gostava do tratamento que sofria ao longo do tempo. Muitos tinham medo e até raiva dela.

Então, queria mostrar que ela era importante também para a humanidade. O interessante que ela escreve na carte morte e não A Morte. Na verdade, é uma morte específica de pessoas. O leitor percebe que o personagem principal dessa história é a morte, esquelética e gelada. Todavia, para o romancista, modificar a morte em personagem se torna um jeito de tratar da vida, com humor e ironia.
O retorno vem com novas regras. Ela enviará uma carte em um tempo estabelecido ao indivíduo que morrerá, assim ele terá de se despedir da família, amigos e resolver questões da herança. Essa novidade levará reações diversas nas pessoas, uns fazem orgias, outros praguejas e houve pessoas resignadas que se despediram das pessoas queridas.

O último bloco é que uma carta foi devolvida para Morte. Então, ela fica surpresa e vai conhecer o homem que não recebeu a missiva. Era um violoncelista que vivia sozinho com seu cão. A partir daí Morte se humaniza e se apaixona pelo músico. Torna-se mulher e o músico ficou atraído por ela.

Saramago ao tornar a morte como personagem nesse livro proporciona uma reflexão como também faz parte da nossa vida. E que não deve só temê-la ou odiá-la. Mas, amá-la também, pois faz parte da nossa própria vida.



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