domingo, 27 de maio de 2012

OUTROS OLHARES


 A CRONICA DE HOJE NO "Estado de Minas"e "Correio Braziliense"para não perder o hábito:


LER O LIXO


Affonso Romano de Sant’Anna


O lixo está na moda. Em todas as partes. Na novela “Avenida Brasil”um dos cenários é o lixão onde a Débora Falabela e o Cauã, digo, seus pesonagens cresceram.
Há pouco o Vik Muniz levou nosso lixo para Holywood, fez aquele documentário sobre um lixão carioca, levou o simpático catador de lixo ao Oscar. Lixo: material de exportação. O autêntico produto interno bruto.
Antes foi aquele filme documentário lírico e estarrecedor de Marcos Prado“Estamira”- ele jogou a loucura do lixo e o lixo da loucura na nossa cara. Não dava mais para fingir que somos limpos e sãos.
Bem, antes já havia a Boca do Lixo, lá em São Paulo, pólo cinematográfico e da vida boêmia. O lixo foi criando seus derivados e hoje parte daquele território virou a Cracolândia: o lixo humano. As cenas que vemos estão entre as gravuras do Inferno de Dante feitas por Gustavo Dorée, o gulag comunista e os leprosários antigos.
Nos anos 70 surgiu em Minas uma revista marginal chamada “Lixeratura”.Tratava-se de trazer o que estava oculto para a sala de visitas. A chamada “literatura marginal” dos anos 60/70 foi isto. O movimento “underground”ia nessa linha -cavar fundo nossas contradições
Conheço gente que está ganhando dinheiro com o lixo alheio.Trata-se de dar um jeito no dejeto. O estrume vira ouro. Do nada surge o tudo. O lixo ( segundo aquele fácil trocadilho) virou luxo.
Você não pode mais se lichar para o lixo.
Criaram a moda do lixo, a moda “trash”. Eu já tive un daqueles jeans rasgados, que minha filha “contemporânea” me deu. E aí assistimos o inimaginável: as vitrinas mais caras do mundo passaram a vender lixo, roupa rasgadas, desfiadas, falsamente sujas e desbotadas. E os ricos tiveram masoquista e sadicamente o prazer de experimentar ricamente a pobreza.
O lixo invadiu o espaço da arte: detritos (ou lixo mesmo) começou a ser descarregado nas galerias de arte. Teve um anti-artista francês que jogou vários caminhões de lixo na galeria em Paris. E fez o maior sucesso. Tem gosto para tudo.
O que seria do lixo se não fossem os urubus?
O que seria dos urubus se não fosse o lixo?
Há lixo para todos os gostos. Alberto Morávia tem um conto onde narra aquele episódio de Ulisses na ilha de Circe. Mas ele diz que há uma outra versão segundo a qual os marinheiros comiam lavagem com muito gosto, ninguém os obrigava. Eles comiam e achavam uma delícia.Gostavam ( freudianamente) do “mal estar da civilizacão”-como na pós-modernidade.
Outro dia estava falando em Joinville e sugeri que quem trabalha com a leitura deve fazer um programa com os lixeiros porque eles lêm o lixo da cidade, eles lêem nossa cultura de forma muito peculiar. E têm coisas para contar.
Uma agente de leitura me deu comovente um DVD sobre os lixeiros da cidade.
Já ia dizer que estava me deliciando com o video. Na verdade, estou me “delixiando”.


Fonte: Facebook do autor