terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Bola de sebo de Guy de Maupassant





É um conto de vinte de poucas páginas que sua grandiosidade por retratar a natureza humana, tornou-se um clássico da Literatura Universal.  


As famílias mais ricas( como sempre em todas as épocas) da cidade alugam um carro para escapar. Entretanto não estão sozinhos, a mais famosa prostituta da cidade, apelidada de Bola de Sebo, por ser muito gorda fará companhia para eles. Todos sentem repulsa e tentam ignorar a moça, mas ela tem comida e todos se rendem a ela porque estão morrendo de fome. Tudo ia bem na viagem, os burgueses aparentemente tratavam a bola de sebo como igual, mas são surpreendidos pelo um oficial prussiano que os impede de seguir viagem.

Ele só deixaria eles seguirem se tivesse uma noite de amor com a prostituta. Mas, ela não queria, pois, era um inimigo da França. Bola de Sebo tinha seus princípios, logo os outros viajantes tentaram convencê-la a passar uma noite com o oficial, construindo justificativas para ela ceder. Na verdade, só pensavam neles e a odiavam por causa de sua recusa, “ não era só uma prostitua.  

“Destaquei até uma citação de como os burgueses manobraram a ingênua prostituta... “Era um argumento poderoso, de que a condessa se aproveitou. Então, ou por um desses entendimentos tácitos, dessas veladas complacências, em que se sobressai quem quer que use um hábito eclesiástico, ou simplesmente por efeito de um mal entendido feliz, de uma providencial parvoíce, a velha religiosa trouxe para a conspiração um formidável apoio. Julgavam-na tímida; ela mostrou-se ousada, até mesmo violenta. Não era perturbada pelos rodeios da casuística; sua doutrina parecia uma tranca de ferro; sua fé não hesitava nunca; sua consciência não tinha escrúpulos. Achava muito natural o sacrifício de Abraão, pois teria imediatamente matado pai e mãe, a uma ordem vinda do Alto; e nada, a seu ver, podia desagradar ao Senhor quando a intenção era louvável. A condessa, explorando a autoridade sagrada de sua imprevista cúmplice, obrigou-a a fazer como que uma edificante paráfrase deste axioma de moral: "O fim justifica os meios".
Ela a interrogava:
- Então, irmã, acha que Deus aceita todas as vias e perdoa o fato, quando o motivo é puro?
- Quem o poderia duvidar, madame?
Uma ação censurável em si torna-se muitas vezes meritória pelo pensamento que a inspira. E continuavam, assim, destrinchando os desígnios de Deus, prevendo suas decisões, fazendo-o interessar-se em coisas que, na verdade, não lhe diziam respeito. Tudo isso velado, hábil, discreto. Mas cada palavra da santa mulher abria brecha na resistência indignada da cortesã.”.

Bola de sebo se achando mártir e que aquelas pessoas eram amigas cedeu e mesmo forçada transou com oficial prussiano. O “burgueses descentes” felizes por seguir viagem nem se importaram com ela e ainda a desprezaram. Bola de Sebo seguiu viagem chorando ao ver ser desprezada. Detalhe, ninguém lhe ofereceu um lanche para retribuir a gentileza de ela ter oferecido para eles, quando estavam com fome.

Assim, o que achei importante no conto é que o autor evidencia como as pessoas agem em relação aos seus preconceitos e ódios de um jeito hipócrita enrustido. Os Burgueses nunca engoliram Bola de sebo, aturaram-lhe porque ela foi a única que se lembrou de levar mantimentos para fuga. 

Mesmo tratando com respeito, o desprezo estava velado e mesmo que a prostituta ajudasse, a raiva que sentiam aumentava cada vez mais por ela.
De certa maneira, isso acontecia com os invasores. Mesmo que os “nativos” convivessem em “harmonia” com os soldados prussianos. 

“Sempre aconteciam assassinatos silenciosos de soldados estrangeiros. Constantemente havia uma resistência que não era organizada, mas que existia nas sombras. Os vencedores exigiam dinheiro, muito dinheiro. Os habitantes pagavam sempre; eram ricos, aliás.  Mas quanto mais um negociante normando se torna opulento, mais lhe dói qualquer sacrifício, qualquer parcela da sua fortuna que veja passar às mãos de outrem. No entanto, alguns quilômetros aquém da cidade, seguindo o curso do rio, na direção de Croisseti, Dieppedalle ou Biessart, os marinheiros e os pescadores traziam seguidamente do fundo da água algum cadáver de alemão, inchado no seu uniforme, morto a facada  ou a pedrada, ou arremessado com um empurrão do alto de uma ponte. A lama do rio amortalhava essas vinganças obscuras, selvagens e legítimas, heroísmos desconhecidos, ataques mudos, mais perigosas que as batalhas em pleno dia, e sem a repercussão da glória.”

Por isso o conto é tão atual, porque se pode observar esse fato na atualidade. Trabalhadores explorados que arrumam um jeito para sabotar o patrão explorador. Mesmo que na frente acate ordens, mas quando chefe dá as costas, arruma um jeito de sabotar.


Enfim, é um conto de muitas leituras e nos faz refletir sobre como não devemos nos iludir com as aparências. O preconceito está escondido nos lugares mais sombrios do ser. Mesmo num ambiente cordial, devem-se perceber as entrelinhas, senão, nem saberá da onde partiu o bote fatal.