domingo, 17 de outubro de 2010

TEXTO ANTIGO

NOS POÇOS

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê. "


Entrei no poço e adorei adentrar no labirinto que fica no subterrâneo. Há leituras que são como um salto no escuro, não adianta só dissecá-la racionalmente ou academicamente, precisa senti-la para poder viajar junto com a narrativa. O OVO APUNHALADO é este tipo de leitura. As imagens insólitas construídas nos vinte e um contos são impressionantes e emitem radiações à imaginação do leitor; provocando diferentes sensações.

Caio Fernando Abreu não quer contar histórias com começo, meio e fim; mas provocar nossos sentidos com relatos e personagens enigmáticos. Ele cita, principalmente em epígrafes, suas referências literárias como, por exemplo, dois escritores conhecidos Julio Cortázar e Clarice Lispector. O título do conto que é também o do livro há um diálogo com o conto O OVO E A GALINHA de Clarice. Achei muito proveitosa essa alusão a outros artistas, porque leva os leitores à curiosidade em conhecer outras leituras. Já escrevi no caderno as dicas, para depois dar uma espiada.

Um dia, lerei o livro novamente, com certeza deixei escapar bastante coisa; entretanto, o bacana não é isso? À medida que somos mais estimulados, incorporamos novos pontos de vista. Deve ser sem graça ler o livro pela primeira vez e só ter uma interpretação definitiva.