sábado, 9 de outubro de 2010


Angela Schnoor, psicóloga, auxiliou pessoas e aprendeu, com as questões dos outros, muito sobre si mesma. Abastecida de humanidades, hoje as transforma em histórias. Blogs da autora: http://microargumentos.blogspot.com/ e http://idealiapolaris.blogspot.com/

No dia 17 de outubro, será lançado o livro "O Olho da Fechadura" - são 150 minicontos que têm como cerne a alma humana.

“ O olho da fechadura é por onde espiam aqueles que desejam ver o que se esconde nos aposentos da alma. Psicólogos têm esta tendência; buscam o que está oculto e através do pequeno orifício podem divisar um vasto mundo por trás das defensivas portas e aparentes fachadas. Sem ser apenas um buraco, olho no olho, encontramos o outro e a nós mesmos. O olho da fechadura também tem algo a contar. Assim como nos minicontos, o olhar aparentemente restrito devassa vidas e conta, a cada fresta divisada, histórias sem fim.” (Angela Schnoor)

1) Quando se interessou pela literatura?

Desde menina eu lia muito os escritores brasileiros - Cony, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e outros. Lia também Aldous Huxley e alguns estrangeiros, mas como me direcionei para um estudo secundário prático com intenção de trabalhar logo, não tive a formação clássica que desejaria. Escrevia poemas, fazia redações para colegas e amigos e lia escondido no banheiro, pois havia muita cobrança de participação nos trabalhos domésticos. Não fui uma menina rica.

2) Como a psicologia e a astrogia ajudam no seu processo criativo?

Me ajudam porque fazem parte de mim, pela consciência que trouxeram de meu psiquismo e de todos aqueles a quem conheci e auxiliei profissionalmente. O estudo dos mitos e da linguagem simbólica também se encontra afinado e nutre o conhecimento da psique.

3) Por que você escreve? Tem pretensões literárias?

Escrevo porque me diverte. É meu recreio na vida. Creio que ao envelhecer começamos a ter mais espaço para fazer o que nos dá prazer, assim como podemos liberar partes de nós que estavam ocultas ou distraídas pelos deveres.
Aprecio que leiam o que escrevo. Não sei bem o que seriam pretensões literárias, pois não identifico em mim, desejo nem pretensão alguma. Mas, há um fato que me dá imenso prazer: os amigos virtuais que traduzem e publicam meus contos no exterior. É como se eu estivesse vivendo em outros países sem ter que me deslocar, falando em outras linguas em silêncio. E até hoje só ganhei traduções perfeitas!

4) Quando escreve tem receio de se expor?

Não gosto de me expor e nem de quem se expôe. O mundo exibicionista de hoje me desagrada pois é feio e grosseiro.
Aprecio intimidade e discrição. Entretanto, creio que tudo o que escrevemos, de alguma forma, reflete o que somos. Portanto, em cada linha que escrevo me escrevo, mas não me exponho.

5) O que a inspira?

A vida é a fonte de inspiração. Os seres vivos, a natureza, fotografias e as imagens que povoam minha imaginação, sonhos e fantasias.

6) Como surgiu o projeto de publicar o seu novo livro?

Nunca tive projeto de publicar um livro, principalmente em papel. Escrevi e tentei organizar o que escrevi. Assim, alguns contos foram publicados em E - Book por insistência de um velho amigo, Minicontos também foram publicados neste formato. Poemas foram instigados à publicação por um outro amigo, mas permanecem nos arquivos. E o Blog Microargumentos aconteceu pelo desejo de organizar os minicontos num só lugar. Gosto deste espaço virtual.
Alguns amigos publicaram livros e eu sempre duvidava se queria publicar em papel. Sou alérgica, amo árvores, não sou vaidosa e a cada dia desejo mais espaço e menos objetos e tralhas. Estava satisfeita com os textos virtuais que não tem ácaros, existem na luz e mal ocupam espaço. Foi o meu amigo Wilson Gorj, quando assumiu o selo 3X4 da Editora Multifoco, que desejou editar meus contos e me deu este presente carinhoso.

7) Como você vê a crítica, principalmente em relação ao livro?

Não aprecio elogios. Aceito aqueles que reforçam os que eu mesmo me faço quando considero que fiz algo bem feito e de valor. Aprecio a crítica, a análise, o discernimento, pois nos tornam melhores e nos ensinam. A crítica maldosa só me atinge quando permito e só acontece quando vem de alguém muito íntimo e a quem amo.
Agradeço aos que fizerem críticas aos meus contos, pensarei nelas e vou acatar as que forem de ajuda para melhor me expressar.

8) Para você, o que está faltando na literatura hoje?

Exatamente mais senso crítico, originalidade e profundidade. Hoje todos escrevem tudo e qualquer coisa sem o menor senso de auto crítica.


9) Comente sua relação com a micronarrativa e O microargumento. E como a descobriu?

Lembro de mim sendo sintética e me dando mal nas provas porque os professores gostavam das alunas que "enchiam linguiça" como eram chamados os textos em que pouco se sabe do assunto, mas se escreve e floreia à bessa!
Quando, em 2001, comecei a escrever contos de 300 toques para um fanzine chamado Falaê, percebi que minha facilidade para a concisão havia chegado ao momento certo. Depois veio a Revista portuguesa Minguante e por aí segui.
Hoje não mais me preocupo com o número de toques ou qualquer outra contagem, desejo apenas contar histórias curtas, um trecho de uma história maior que sirva de gatilho para a imaginação do leitor.