domingo, 12 de fevereiro de 2012

LABIRINTO DE ESPELHOS


Tive este pensamento quando assisti Avatar. Apesar dos efeitos especiais do filme, não pude deixar de perceber ecos de histórias que aconteceram na realidade. Quantos exploradores, cientistas e entre outros abandonaram seus lugares de origem e mergulharam em um novo mundo e fazendo parte dele em seguida e se tornado outro. Acho isto fantástico e possível de acontecer.

No conto “ história do guerreiro e da cativa”, Borges narra duas histórias paralelas de diferentes épocas, mas que na essência, idênticas. A primeira parte do conto é de um guerreiro que traiu os seus para defender o que eram antes, seus inimigos e a segunda  relata, a história de uma inglesa que foi raptada pelos índios do “pampa” e ao longo do tempo se tornou uma “ aborígine”:

”... Droctulft foi um guerreiro lombardo, que no cerco de Ravena, abandonou os seus e morreu defendendo a cidade que antes atacara. Os ravenenses sepultaram-no num templo e compuseram um epitáfio em manifestavam sua gratidão: “ desprezou os seus entes queridos, para nos amar”.
... Em 1872, meu avô Borges era chefe das fronteiras Norte e Oeste de Buenos Aires e Sul de Santa Fé. O comando estava em Junín; mais além, a quatro ou cinco léguas um do outro, a cadeia dos fortins; mais além, o que então se denominava La Pampa e também Tierra Adentro. Uma vez, entre maravilhada e brincalhona, minha avó comentou seu destino de inglesa desterrada nesse fim de mundo; disseram-lhe que não era a única e lhe mostraram, meses depois, uma rapariga índia que atravessava lentamente a praça. Vestia duas mantas vermelhas e ia descalça; suas tranças eram loiras. Um soldado disse-lhe que outra inglesa queria falar com ela...
Talvez as duas mulheres, por um instante, se sentissem irmãs; estavam longe de sua ilha querida e num inacreditável país. Minha avó enunciou qualquer pergunta; a outra respondeu com dificuldade, procurando as palavras e repetindo-as, como que assombrada por algum antigo sabor. Faria quinze anos que não falava o idioma natal e não era fácil recuperá-lo. Disse que era de Yorkshire, que seus pais emigraram para Buenos Aires, que os perdera num ataque, que os índios a levaram e que agora era mulher de um capitãozinho a quem já tinha dado dois filhos e que era muito valente. Foi dizendo isso num inglês rústico, intercalado de araucano ou pampa, e por trás do relato se vislumbrava uma vida cruel: os toldos de couro de cavalo, as fogueiras de esterco, os festins de carne chamuscada ou de vísceras cruas, as sigilosas marchas ao amanhecer; o assalto aos currais, o alarido e o saque, a guerra, a caudalosa boiada tangida por cavaleiros desnudos, a poligamia, a hediondez e a magia. A tal barbárie se rebaixara uma inglesa. Movida pela lástima e pelo escândalo, minha avó exortou-a a não voltar. Jurou ampará-la, jurou resgatar seus filhos. A outra lhe respondeu que era feliz e voltou, nessa noite, para o deserto. Francisco Borges morreria pouco depois, na revolução de 74; minha avó, então, pôde talvez perceber na outra mulher, também arrebatada e transformada por este continente implacável, um espelho monstruoso de seu destino…
Mil e trezentos anos e o mar punham-se entre o destino da cativa e o destino de Droctulft. Os dois, agora, são igualmente irrecuperáveis. A figura do bárbaro que abraça a causa de Ravena, a figura da mulher européia que opta pelo deserto podem parecer antagônicas. No entanto, um ímpeto secreto arrebatou os dois, um ímpeto mais fundo que a razão, e os dois acataram esse ímpeto que não souberam justificar. Talvez as histórias que contei sejam uma única história. Para Deus, o anverso e o reverso desta moeda são iguais. ”

Ao fazer relações com o filme, o conto e algumas histórias reais, começo a concordar com a teoria de Borges que a História da humanidade é um labirinto de espelhos e que o eu e o outro, na realidade, são um só. E que a existência não deixa de de ser diversa e una.