domingo, 7 de outubro de 2012

O RISCO DO BORDADO DE AUTRAN DOURADO









Você se lembra de como estivesse a ver um filme? Suas lembranças são precisas? 

No romance, mostra como a memória é complexa com um labirinto. Há fragmentos muito antigos e recentes que vão construindo um mosaico na cabeça. O protagonista João se recorda das primeiras lembranças como se fossem brumas de um sonho ou quimeras.  Inclusive, formar imagens míticas. Pergunta-se o tempo todo se reais ou inventadas por sua imaginação. 

O livro tem como foco a memória afetiva e como muitas vezes o personagem se perde nas suas impressões em ralação às lembranças. 

O bacana é como o autor mostra que as primeiras recordação são pintadas com cores vibrantes e como se fossem ficção com heróis, princesas e fadas. Depois, quando João fica adolescente a erotização dos causos que viveu e a confusão que hormônios causam. Depois, quando João se torna adulto e a sua memória torna-se mais próxima do real, sem fantasias de criança que continuam a povoar seus sonhos. 

Inclusive, o romance mostra como o tempo influencia a memória. A epígrafe do livro ilustra muito bem o romance:

“ Quando eu era mais jovem, podia lembrar-me de qualquer coisa, tivesse ou não acontecido; mas agora as minhas faculdades estão decaindo e em breve só serei capaz de me lembrar das coisas que nunca aconteceram.” – Mark Twain, AUTOBIOGRAFIA

O narrador se sobrepõe em primeira e terceira pessoa e há várias passagens em que se pergunta se está certo de suas lembranças ou se elas se misturam, formando um labirinto de imagens sobrepostas.

“ Quando ingressava na zona sombria e pastosa em que difícil saber se já estamos ou não dormindo, se sonhamos ou apenas lembramos...”

Enfim, o interessante do romance não é a história em si, mas como o narrador vai costurando os fragmentos das lembranças e formando um painel da memória afetiva do protagonista João e os outros personagens. E o olhar particular e solitário de cada um em relação ao mundo.