domingo, 15 de maio de 2016

Ciranda de Pedra (1954) de Lygia Fagundes Telles




Confesso que me surpreendi ao ler o livro, inclusive, a forma cuidadosa e envolvente da autora. Conhecia a história por alto, quando foi lançada uma segunda versão da novela inspirada no romance em 2008. Por isso, quando me deparei com a narrativa me senti atraído pelo livro, mesmo sabendo alguns elementos do enredo. Tive sensação igual quando li outro livro de Lygia, "As meninas”, como em Ciranda de Pedra, os personagens vão se descortinando, mostrando suas ambiguidades psicológicas e conflitos interiores. Ciranda de Pedra se divide em duas partes.

A primeira narra a história de Virgínia, quando era menina. Os pais eram divorciados e ela vivia com a mãe e seu companheiro (Tio Daniel) e Luciana, uma empregada. Além de visitar o pai e as irmãs de vez em quando. Nesta faze, Virgínia percebe os acontecimentos, mas não entende. Por que a mãe é louca? Por que os pais estão separados? Por que a mãe não volta para o pai? Por que o pai a trata diferente das outras irmãs e a governanta alemã, também? Por que as irmãs sempre a deixam de fora das brincadeiras? Aí, vem a explicação do título do romance. Quando ia à casa paterna, havia uma ciranda de anões e no meio uma fonte e Virgínia fez uma comparação com as irmãs e seus amigos que não permitiam sua entrada na roda. A menina entrava numa tormenta de emoções, idealizava a casa do pai e a vida das irmãs e não gostava da casa, onde vivia com a mãe e o tio Daniel. Ainda desconfiava da empregada Luciana de gostar de Daniel e de almejar ficar livre da sua mãe, que se chama Laura. Então, Daniel decide que Virgínia more com o pai e as irmãs, pois a Laura está piorando muito. No início, fica contente, porém, percebeu que continuava sozinha, já que ninguém a deixava entrar na ciranda. Depois de um acontecimento trágico e uma revelação, decide ir a um internato.

Na segunda parte, Virgínia está uma moça e retorna para casa. Ainda se sente rejeitada pela família. Porém com tempo, percebe que as pessoas que idealizou não eram bem como pensavam. Sente-se um peixe fora d´água e faz uma jornada interior para descobre qual seu lugar no mundo. Acredita que ainda não deixam entrar na roda. Todavia, percebe que todos possuem suas feridas, defeitos e não poderia cobrar nada. A solução será encontrar seu caminho. O interessante do livro foi que, mesmo tendo elementos trágicos, houve um olhar moderno em relação ao comportamento dos personagens, sem maniqueísmo tolo, pelo contrário, eles têm seus defeitos e virtudes. Virgínia na sua busca de afeto errou, mas, não queria simplesmente vingança, pelo contrário, tinha fome de afeto. Há elementos psicológicos no romance que o aproxima da realidade. Também, aborda questões polêmicas da época como o Divórcio, a emancipação da mulher e a homossexualidade.

Enfim, foi uma grata surpresa o romance e o achei bem atual. Pois, ainda muitas pessoas vivem na superfície das mascaras e ainda não sabem lidar com turbilhão de sentimentos que eclodem dentro da gente.