quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ALGUNS PONTOS INTERESSANTES DO LIVRO DRÁCULA DE BRAM STOKER


Meu objetivo, não é fazer o resumo do livro, já que existe um vasto material, inclusive, na Internet. Levantarei algumas questões, as quais considerei relevantes.

Narrativa polifônica, o romance em forma epistolar, dá voz às várias personagens. Além de notícias de jornais e telegramas. Não há o depoimento do Conde Drácula. Assim sendo, o eleitor possui a liberdade de interpretar como quiser quem foi este terrível personagem, o qual se transformou nessa criatura das trevas.

A história se inicia, ao mostrar como o castelo em uma remota zona da Transilvânia é diferente da Inglaterra, onde a paisagem e as pessoas são exóticas, selvagens e muito supersticiosas. Percebe-se a dicotomia entre a civilização e Barbárie. 

 O romance foi escrito em 1897 e o auto por meio dos diários e notícias de jornais, expõe como a Inglaterra, também, os países da Europa Ocidental, viviam em pleno vapor da modernidade. As inovações tecnológicas ajudaram no combate da maldição do Drácula como, por exemplo, o telegrama, as notícias de jornais e o aparelho onógrafo, inventado em 1877 por Thomas Edison para a gravação e reprodução de sons através de um cilindro e a máquina de escrever. Ao pesquisar a ocasião que a história foi desenvolvida, descobri que se relaciona à era Vitoriana no Reino Unido. Foi o período do “reinado pela rainha Vitória, em meados do século XIX, de junho de 1837 a janeiro de 1901. Este foi uma longa temporada de prosperidade e paz para o povo britânico, com os lucros adquiridos a partir da expansão do Império Britânico no exterior, bem como o auge e consolidação da Revolução Industrial e o surgimento de novas invenções. Isso permitiu que uma grande e educada classe média se desenvolvesse.”

Reuniram tudo e organizaram a informação e o conhecimento para lutar contra o mal iminente. O método e a disciplina inglesa e da Europa Ocidental venceram o caos demoníaco e repulsivo do Conde Drácula, o qual é descrito como um ser não evoluído, com um cérebro de criança e que fez pacto com Demônio para se tornar um monstro. Há a construção do outro, o inimigo como exótico, amaldiçoado, terrível, um parasita e arquétipo do mau. Observação! Recorto a imagem construída do vampiro no romance, visto que o mito deste ser das trevas é bem vasto e de origens diversas. O autor Bram Stoker passou vários anos pesquisando folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros, a partir de suas análises construiu o seu personagem vampiresco. 

Diferente da imagem glamorosa dos vampiros de hoje em dia, que são bonzinhos-belos-depilados-fazendo-biquinho. O contexto de agora é bem diferente daquela época. Atualmente há uma valorização cada vez maior da estética da juventude. Mas, na época em que o livro foi escrito, havia a religião de a alma ser salva e não vagar pelas madrugadas como um não morto, vivendo a danação eterna. 

Não se pode se esquecer da crítica que o livro faz do pensamento cético por meio do personagem Van Helsing, o qual como homem da ciência, para combater o mal antigo, saiu da sua zona de conforto e se utilizou dos conhecimentos antigos e supersticiosos. Os outros personagens, no início ficaram perplexos, pois, viviam na Inglaterra no auge da modernidade e da religião protestante, que crê só na palavra e não em crucifixo e superstições.

 Há a construção da imagem da mulher que evidencia os valores vigentes do final do século retrasado. As mulheres eram tuteladas pelos homens por serem fracas e influenciáveis. As vampiras são voluptuosas demais. Elas são noivas de Drácula completamente opostas aos valores vitorianos, utilizam-se da sedução para conseguir seus objetivos de sugar sangue. Explicitam o desejo e gozam despudoramente.

A melhorzinha descrita no livro é Mina, representa a moral vitoriana, ajuda seu marido a prosperar! Religiosa e respeita o marido e o casamento. Faz sexo só para procriar e satisfazer o esposo. Além de ser uma excelente dona de casa, recatada e do lar, consegue ser inteligente “como o homem” e ajudou como secretária na organização dos relatos, com a finalidade de descobrir o ponto fraco de Drácula. Até eu quis uma Mina para mim.

 Enfim, é uma história que ainda dá muito caldo para pensar sobre os mistérios deste mundo, principalmente, em relação ao ser humano. Por que os vampiros são presentes no nosso imaginário? Será que o ser humano possui características vampíricas? Como o fato de almejar a hegemonia e se perpetuar através da infelicidade do outro? O que o Drácula queria, muitos de nós desejam tão quanto? 

O bicho homem sempre brincando em ser Deus e até flertando com o diabo para conseguir.