domingo, 26 de abril de 2015

Janela sobre a memória (I) de Eduardo Galeano



  

   À beira-mar de outro mar, outro oleiro se aposenta, em seus anos finais.
     Seus olhos se cobrem de névoa, suas mãos tremem: chegou a hora do adeus. Então acontece a cerimônia de iniciação: o oleiro velho oferece ao oleiro jovem sua melhor peça. Assim manda a tradição, entre os índios do noroeste da América: o artista que se despede entrega sua obra-prima ao artista que se apresenta.
     E o oleiro jovem não guarda esta peça perfeita para contemplá-la e admirá-la: a espatifa contra o solo, a quebra em mil pedacinhos, recolhe os pedacinhos e os incorpora à sua própria argila.

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Ao ler este texto comecei a pensar sobre outros aspectos que com certeza o autor não pensou na hora de escrevê-lo.  Mas, mesmo assim, divagarei um pouco, já que depois da leitura me lembrei do conceito da Antropofagia Cultural e de como ela é importante para a sobrevivência do conhecimento humano.  
Se observarmos bem, nada é original em si. Existe um processo de saberes anteriores que ao longo do tempo são digeridas e transformadas em outros conhecimentos. Quando o indivíduo digere as informações e a modifica para complementar seu olhar, torna-se criativo. Diferente do que só reproduz como um gravador e contempla passivamente a obra do outro.