terça-feira, 2 de abril de 2013

OS TRABALHADORES DO MAR DE VICTOR HUGO


Tinha este livro há alguns anos na minha prateleira, mas nunca tive coragem de lê-lo. Um dia, por indicação na internet e de uma ex-colega de trabalho, decidi ler.

Confesso, achei o texto muito descritivo ( da época), todavia, encontrei lindas passagens, principalmente, em relação às descrições sobre o mar. O autor mostra que estudou os ventos e o mar e como funcionam.  Inclusive, a vida dos seres mais primitivos que habitam a vastidão dos oceanos.

" São singulares as solidões das águas. É o tumulto e o silêncio. O que aí se faz já nada tem o gênero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento de vagas."

“ O vento é cheio de mistério. Do mesmo modo o mar. Também ele é complicado; debaixo de suas vagas de águas, que se vêem, há outras vagas de forças, que não se vêem. Compõe-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisível e mais profunda.”

“... As iam dobrar as suas tranquilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros do mar e da noite.
Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda de água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.”

O romance mostra a luta que o homem tem com a natureza e como o amor pode sobrepujar a ganância do ser humano. O protagonista( Gilliat) está à margem da sociedade em que vive, tanto para os humildes e supersticiosos pescadores da localidade e como os burgueses.  

À guisa de apresentação, o editor escreve na primeira página:
“A religião, a sociedade, a natureza: tais são as três lutas do homem. Estas três lutas são ao mesmo tempo as suas três necessidades; precisa crer, daí o templo; precisa criar, daí a cidade; precisa viver, daí a charrua e o navio. Mas há três guerras nessas três soluções. Sai de todas a misteriosa dificuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstáculo sob a forma superstição, sob a forma preconceito e sob a forma elemento. Tríplice 'ananke' pesa sobre nós, o 'ananke' dos dogmas, o 'ananke' das leis, o 'ananke' das coisas. Na Notre-Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; em 'Os Miseráveis', mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro. A essas três fatalidades que envolvem o homem, junta-se a fatalidade interior, o 'ananke' supremo.”( Hauteville-house, março de 19866)

Mas, Gilliat se sacrifica para o bem da amada, quebrando assim as três fatalidades citadas à cima. É um herói romântico que está além das superstições, da ganância da força da natureza.

 O romantismo de Gilliat não é só o amor romântico e sim um visão altruísta, o qual se contrapõe ao pragmatismo do cotidiano.  Torna-se um anjo marginal convivendo com a mesmice. Eu gostaria de ser que nem ele, contudo, sou muito imperfeito...

Demorei de ler o romance, mas o importante é que o li agora.  Valeu apena de ter comprado há anos atrás.