segunda-feira, 2 de abril de 2012

DOMINGO CULTURAL




Venci minha preguiça e fui com minha irmã ao CCBB. Nós fomos ver Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, mas antes demos uma passada na exposição das obras da artista Tarsila do Amaral( Percurso afetivo). Logo, comecei a pensar que poderia fazer algumas relações sobre a exposição e a peça, principalmente, na busca de fazer uma arte espontânea e não ser uma cópia da arte europeia. 

Tarsila do Amaral iniciou o aprendizado na pintura em 1917, com Pedro Alexandrino Borges. Posteriormente, estudou com o alemão George Fischer Elpons. Em 1920, viaja a Paris e frequentou a Academia Julian, onde desenhava nus e modelos vivos intensamente. Também estudou na Academia de Émile Renard.

Tempos depois, aderiu às ideias modernistas ao voltar ao Brasil, em 1922. Numa confeitaria paulistana, foi apresentada por Anita Malfatti aos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Esses novos amigos passaram a frequentar seu atelier, formando o Grupo dos Cinco. Estudou com os artistas cubistas: frequentou a Academia de Lhote, conheceu Pablo Picasso e tornou-se amiga do pintor Fernand Léger, visitando a academia desse mestre do cubismo, de quem Tarsila conservou, principalmente, a técnica lisa de pintura e certa influência do modelado legeriano.

Na mostra, deu para perceber essas tendências e como ela as assimilou para buscar uma identidade própria, inserindo o cotidiano dos brasileiros comuns das ruas e dos bairros humildes. 

Já Nelson Rodrigues, apesar de ser realista em pleno Modernismo, não deixou de inovar. O autor adaptou a tragédia grega para a sociedade carioca do início do século XX, surgindo assim a "tragédia carioca”, mas com um tom contemporâneo. O erotismo é uma característica marcante na obra de Nelson Rodrigues, o que lhe garante o título de realista. Não hesitou em denunciar a sordidez da sociedade da época. 

A nova adaptação que assisti mostra estas evidências. As notícias de crimes de jornais, as paixões avassaladoras, a hipocrisia e a loucura. Conta a história de Alaíde, uma moça que é atropelada por um automóvel e, enquanto é operada no hospital, ela relembra o conflito com a irmã (Lúcia), de quem tomou o namorado (Pedro), e imagina seu encontro com Madame Clessi, uma cafetina assassinada pelo namorado de dezessete anos. 

O que me chamou a atenção foi como foi montado o espetáculo. Não tinha a divisão clássica ente o palco e a plateia. Era uma arena, onde os atores transitavam no espaço dos espectadores e interagindo com eles. Entrei na arena e os atores diziam, sejam bem vindos... 


A peça teve como proposta construir um novo olhar sobre a história. Mostrar outro jeito de contá-la e mesmo que isso seja confuso para muitas pessoas. Confesso que nos primeiros minutos fiquei atordoado, porém, fui assimilando os acontecimentos. 

Enfim, relacionei a exposição da Tarsila, a peça de Nelson e esta nova versão como exemplo de antropofagia,  um ritual dos índios que se alimentavam do inimigo com a finalidade de obterem sua força. Assimilar as várias referências artísticas e do cotidiano e construir a partir deles um olhar autônomo. Também, faz refletir como Brasil pode pensar sobre si mesmo, sem tentar ser uma mera cópia da Europa e E.U.A.. Temos uma cultura tão vasta e diversa, que através das várias influências podemos construir nossa identidade. 
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Quando voltei para casa, explodindo de impressões, olhei a lua. As nuvens estavam atravessando-a. Uma bela imagem que fechou com chave de ouro meu domingo cultural.


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Fontes: