domingo, 19 de fevereiro de 2017

O quarto do Jack



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O filme  narrou a história de um menino de cinco anos que junto com sua mãe foram confinados em quarto e reféns de um homem louco ou psicopata. Tema bem pesado, mas, o enredo nos mostrou uma forte relação de amor entre mãe e filho, além, da superação do pós-trauma. 

O olhar do garoto ( ele é o narrador) expõe como se relaciona com o quarto-cativeiro. Como nasceu ali, considerava o lugar como seu lar e por meio do lúdico e do lirismo infantil, percebeu-se numa relação de afeto com o recinto. Lembrei-me de um livro de memórias de Rubem Alves( O velho que acordou menino), que num texto, o autor abordou a felicidade da infância. Quando se  é muito pequeno, fica-se feliz por tudo. Isto acontece porque ainda não há como comparar sua vida com a do outro. À medida que se cresce, encontramos paradigmas, os quais distanciam da felicidade. Estamos sempre querendo ou buscando mais para a realização de nossos sonhos. 

" Tudo o que eu disse sobre a "roça" como lugar que a esperança abandonou só valia para os grandes. Eu era uma criança feliz. Infelicidade começa com a comparação. E eu não tinha como comparar. Bachelart observou que " a infância conhece a infelicidade através dos homens" ( A poética do devaneio. P.9.)”.

 Tem um conto do Machado de Assis( Ideias do Canário) que abordou esta questão. A partir do encontro do homem com o pássaro, Machado expos questões filosóficas e existenciais do ser. O homem ficou surpreso, quando o canário disse que seu mundo era: O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.”. Então, ele comprou o canário, para estudá-lo e mostrar para a ave outras definições de mundo. 

 A concepção de mundo se relaciona com o lugar onde a pessoa vive, quanto mais se conhecem,  outras possibilidades surgem. No primeiro momento, o canário estava satisfeito numa gaiola nova; em seguida, na casa do novo dono: “um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto.”. Depois, “espaço infinito e azul, com o sol por cima.”. Depois, o canário concluiu: “— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.”

 Jack quando descobriu que o mundo é bem maior que o quarto, despediu-se dele. Por meio da mãe e dos familiares, percebeu que precisava experimentar o mundo e não permanecer preso no quarto.

O processo de habitação da mãe foi diferente. Como conhecia o outro mundo antes de ser raptada, sabia que era prisioneira e junto com seu filho corria risco de vida. Queria muito fugir e retornar para casa. Como era adulta tinha esperança de fugir. Como Rubem escreve " ...Esperança é coisa de gente grande, que vive no tempo, o passado, o futuro". Diferente de seu filho que só vivia o momento, sem passado e futuro para comparar. Mas, o tempo passou e nada mais era como antes. Então, sentiu-se em desencaixe. Além, de ter sofrido pressão psicológica por muito tempo. Precisava se cuidar logo para as feridas não se tornarem traumas.

Por fim, a abordagem do filme do antes e depois da mãe sair com o filho no cativeiro, foi bem rico e nos mostrou que apesar de um fato terrível ou trágico, pode-se encontrar um novo sentido de viver e seguir a diante.